DNA revela identidade de quatro marinheiros da trágica expedição Franklin quase dois séculos depois

Um pesquisador examina o terreno nevado em local que remete à expedição Franklin, ao lado de ilustração histórica do navio. (Foto: www.foxnews.com)

Quase 180 anos após a condenada expedição do explorador britânico Sir John Franklin ao Ártico, pesquisadores conseguiram identificar quatro novos tripulantes desaparecidos através de análises de DNA. A tragédia, uma das mais infames da história das navegações polares, envolveu 129 oficiais e marinheiros a bordo dos navios HMS Erebus e HMS Terror, que partiram em 1845 na tentativa de mapear a Passagem do Noroeste.

O trabalho, liderado por antropólogos da Universidade de Waterloo, em Ontário, Canadá, foi destacado pela Fox News e publicado no Journal of Archaeological Science: Reports. Os restos mortais agora identificados correspondem a William Orren, marinheiro hábil; David Young, grumete; John Bridgens, despenseiro de oficiais subalternos; e Harry Peglar, contramestre do HMS Terror.

A expedição Franklin ficou presa no gelo nas proximidades da Ilha King William, em Nunavut, em setembro de 1846, e o próprio comandante morreu no ano seguinte. Em abril de 1848, os sobreviventes abandonaram as embarcações e tentaram escapar a pé e arrastando botes pelo terreno ártico, mas nenhum deles resistiu — todos os 105 que tentaram a fuga pereceram.

Restos dos expedicionários foram sendo encontrados desde meados do século XIX tanto na Ilha King William quanto na Península de Adelaide. A nova pesquisa utilizou amostras genéticas desses vestígios ósseos, comparando-as com o DNA doado por descendentes vivos dos marinheiros. O coautor Stephen Fratpietro, da Universidade Lakehead, confirmou correspondências genéticas exatas nos quatro casos.

Com esses achados, o total de navegadores identificados da expedição Franklin sobe para seis, já que em 2021 se reconhecera John Gregory e em 2024 o capitão James Fitzjames. O estudo também desvendou detalhes perturbadores: os restos de Fitzjames exibiam evidências de canibalismo, sendo o único corpo identificado com esse indício, embora não fosse o único a sofrer tal destino.

Os pesquisadores ficaram surpresos ao constatar que cinco dos seis marinheiros já nomeados jaziam perto de duas embarcações a menos de dois quilômetros de distância uma da outra, ao longo da Baía Erebus. A identificação de Peglar foi particularmente intrigante porque o cadáver estava vestido como um despenseiro, o que levou muitos especialistas a acreditarem que os restos pertenciam a outra pessoa.

Douglas Stenton, coautor do estudo, explicou que Peglar provavelmente foi rebaixado a despenseiro por má conduta e que a roupa não correspondia ao seu posto original. ‘Um oficial subalterno é um marinheiro experiente com responsabilidades importantes; devido à vestimenta, muitos assumiram que Peglar já havia morrido e que o corpo era de um amigo que carregava seus documentos para a família’, afirmou Stenton. A teoria foi demolida 167 anos após a descoberta do corpo.

Extrair DNA utilizável das ossadas foi um desafio técnico considerável, pois o material genético se degrada mesmo sob as rigorosas condições do Ártico. Para aumentar as chances de sucesso, os cientistas focaram nos dentes, cujo esmalte duro preserva melhor a informação genética após anos de exposição às intempéries.

A Passagem do Noroeste era tão cobiçada porque representava uma potencial rota comercial entre os oceanos Atlântico e Pacífico, encurtando o acesso aos mercados asiáticos. A expedição de Franklin era a maior e, na opinião de muitos, a mais bem equipada de sua época — seu sucesso teria trazido enorme prestígio e orgulho ao Império Britânico.

Stenton ressaltou que a pesquisa está ajudando a formar ‘uma compreensão mais profunda da perda catastrófica de vidas’, ao mesmo tempo que proporciona algum encerramento às famílias. Os próximos passos incluem a colaboração com genealogistas e descendentes para identificar mais tripulantes, além da eventual coleta de novas amostras arqueológicas no gelo.

Para o cientista, o trabalho é especialmente significativo porque depende e convida à participação dos descendentes daqueles homens que nunca voltaram para casa. O mistério do Ártico continua a ceder lentamente, revelando histórias de coragem, desespero e resistência humana num ambiente que não perdoa fragilidades.


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