A Polícia Federal recomendou à Procuradoria-Geral da República a abertura formal de inquérito contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por transações financeiras suspeitas com o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, conforme revelou o Jornal GGN. O pedido, antecipado pelo jornal Valor Econômico, tem como estopim o caso ‘Dark Horse’, documentário sobre a trajetória de Jair Bolsonaro que teria sido usado para camuflar um repasse de R$ 61 milhões ao exterior.
O senador detém prerrogativa de foro, por isso o avanço depende do exame do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e de posterior autorização do Supremo Tribunal Federal. Como a movimentação envolve o Banco Master, já alvo de outras ações na Corte, a tendência é que o caso caia sob a relatoria do ministro André Mendonça, responsável pelos processos da instituição.
A suspeita central mapeada pela PF está na desconexão entre o destino declarado dos recursos e a execução do filme, segundo fontes próximas à investigação ouvidas pelo Valor. Vorcaro enviou os R$ 61 milhões para os Estados Unidos sob o argumento de financiar a produção cinematográfica, mas os investigadores identificaram que a maior parte das gravações correu em território brasileiro.
A discrepância acendeu o alerta para uma possível evasão de divisas e desvio de finalidade, com os dólares servindo a outro propósito. A apuração agora mira a hipótese de que o montante tenha bancado a permanência do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde ele vive após ter o passaporte retido.
Eduardo Bolsonaro é réu no STF pela acusação de coação no curso do processo, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. O ex-deputado responde por articular pressões políticas internacionais e sanções econômicas contra o Judiciário brasileiro, num esforço para reverter condenações de seu pai, Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar por envolvimento na trama golpista.
Se a investigação comprovar que os recursos foram desviados para sustentar Eduardo enquanto ele atuava para constranger o Judiciário, o financiamento poderá ser enquadrado como colaboração direta com o crime de coação. Isso abriria nova frente penal para Flávio, Vorcaro e demais envolvidos na operação financeira.
A ofensiva jurídica contra o clã se intensificou nas últimas horas com uma ordem de Alexandre de Moraes. O ministro deu prazo de cinco dias para a PGR se manifestar sobre o pedido de inclusão de Flávio e do próprio Jair Bolsonaro na investigação das atividades de Eduardo no exterior, petição protocolada pelo deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ).
A defesa do senador Flávio Bolsonaro ainda não se pronunciou formalmente sobre a manifestação da Polícia Federal. Já o banqueiro Daniel Vorcaro não respondeu aos questionamentos da imprensa até o fechamento desta matéria.
O enquadramento financeiro atinge o coração da estrutura de poder que o PL tenta construir para as eleições de 2026. Flávio, principal operador político da família no Senado, é peça essencial na costura de alianças e na blindagem do espólio eleitoral do ex-presidente, que hoje está legalmente impedido de concorrer, mas ainda dita os rumos do partido.
Um inquérito em plena pré-campanha pode inviabilizar a capacidade de articulação do senador e contaminar a legenda com escândalos financeiros, exatamente quando o PL busca se apresentar como alternativa viável de poder. A legenda tentará manter o discurso de perseguição, mas os fatos tornam mais difícil separar o partido das suspeitas de caixa dois transnacional.
A presença do Banco Master na equação introduz uma fragilidade explosiva: a instituição já está sob escrutínio no STF e qualquer comprovação de que irrigou contas de um parlamentar pode provocar sanções regulatórias severas. Isso arranha diretamente a imagem de um partido que tenta se equilibrar entre a retórica anticorrupção e práticas financeiras opacas.
Os aliados de Flávio no Senado se veem agora diante de um dilema estratégico: arcar com o custo político de acobertar um correligionário manchado por suspeitas ou forçar um distanciamento que pode fragmentar a base bolsonarista. Candidatos municipais que dependem do fluxo de recursos e visibilidade da família temem o respingo da crise em suas campanhas locais.
O episódio recoloca em debate a rede de financiamento que ergueu o bolsonarismo, marcada por conexões entre empresários, bancos e figuras públicas, muitas vezes sem transparência. O repasse de R$ 61 milhões para um documentário que na prática filmava pouco e sustentava um político foragido no exterior expõe um modo de operação que vai muito além de meras doações eleitorais.
A PGR agora analisa se pedirá ao STF abertura formal da investigação contra o senador, enquanto Moraes pressiona por respostas rápidas. O cruzamento entre os dois movimentos sugere que o Judiciário não pretende esperar o calendário eleitoral para esclarecer a trama, e qualquer denúncia formal desencadeará efeitos imediatos na disputa de 2026.
A eventual inclusão de Jair Bolsonaro na apuração, ainda que como investigado por fato conexo ao filho, reforça a tese de que o clã operava como uma entidade político-financeira integrada. O ex-presidente, mesmo encarcerado, poderia ver sua já frágil imagem eleitoral se degradar ainda mais, reduzindo a margem de manobra do partido para virar o jogo até outubro de 2026.
Para o campo progressista, o caso oferece munição concreta para desmontar a narrativa de perseguidos e expor a engenharia de recursos que sustentou a família nos últimos anos. O deputado Lindbergh Farias, autor da petição, já sinalizou que pretende usar as revelações para constranger o PL no Congresso e exigir investigação célere da PGR.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, terá de escolher entre permanecer no centro do debate político como candidato ou líder do bloco oposicionista ou recuar para uma postura defensiva. O histórico mostra que o senador prefere a primeira via, mas o acúmulo de suspeitas criminais pode torná-lo um ativo tóxico para o próprio partido.
O Banco Master, consultado, não respondeu aos pedidos de esclarecimento. A Polícia Federal segue coletando provas documentais e financeiras para embasar o eventual pedido de abertura de inquérito. A expectativa é que, uma vez autorizada a investigação, as quebras de sigilo bancário e fiscal revelem o destino final dos R$ 61 milhões.
Leia também: Toda a cobertura dos escândalos da família Bolsonaro.
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.