Brasília substitui fiação aérea por alimentação pelo solo e destrava VLT bilionário entre a W3 e o aeroporto

Brasília substitui fiação aérea por alimentação pelo solo e destrava VLT bilionário entre a W3 e o aeroporto

Engenharia de contorno ao tombamento do Plano Piloto preserva o horizonte e viabiliza 22 km de trilhos com 39 composições de 45 metros, abrindo precedente para o transporte urbano em cidades históricas brasileiras.

<p>Toda grande cidade revela sua inteligência pelo modo como desloca as pessoas. Brasília, patrimônio mundial tombado onde até o perfil do horizonte é protegido por lei, acaba de encontrar uma solução de engenharia que mostra exatamente essa inteligência ao destravar um projeto de R$3,9 bilhões para levar o Veículo Leve sobre Trilhos ao coração do Plano Piloto.</p>

<p>O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) vetou a proposta original porque a rede de fiação aérea prevista rasgaria o céu de Brasília. A catenária com suas hastes metálicas suspensas sobre os trilhos exigiria ainda a supressão completa da vegetação ao longo da Avenida W3, descaracterizando o traçado urbanístico tombado.</p>

<p>A saída foi apostar no sistema de Alimentação pelo Solo, conhecido pela sigla APS. Essa tecnologia enterra a eletricidade e só libera corrente quando o trem passa exatamente sobre o trilho alimentador.</p>

<p>O projeto reformulado pela Secretaria de Transporte e Mobilidade do Distrito Federal prevê 22 quilômetros de linha, divididos em duas frentes de implantação. Serão 16 quilômetros percorrendo o canteiro central da W3 com 24 estações entre os terminais Asa Norte e Asa Sul, mais um ramal de 6 quilômetros com 4 estações conectando o Terminal Asa Sul ao Aeroporto Internacional de Brasília.</p>

Ao todo serão 39 composições articuladas, 33 operando exclusivamente na W3 e 6 dedicadas ao trecho aeroportuário, conforme detalhou o portal Metrópoles ao ter acesso ao projeto que tramita no Tribunal de Contas do Distrito Federal. Cada veículo impressiona pela escala: 45 metros de comprimento divididos em 7 módulos articulados, com capacidade para transportar entre 400 e 560 passageiros por composição.

<p>É uma solução de alta capacidade que opera na superfície com a agilidade de um metrô leve, mas sem exigir túneis ou estações subterrâneas que explodiriam os custos e os prazos da obra. O sistema APS funciona como um terceiro trilho inteligente, segmentado em blocos isolados que só energizam o segmento exato sob o veículo em movimento.</p>

<p>Um trem convencional com catenária exige postes a cada 30 ou 40 metros, fios de cobre tracionados e um gabarito aéreo que força a poda radical de árvores. Foi exatamente isso que o Iphan considerou incompatível com a preservação do Plano Piloto.</p>

<p>A alimentação pelo solo elimina esses postes, preserva a arborização e mantém o horizonte limpo, mas encarece o projeto e exige maior sofisticação de manutenção e isolamento elétrico contra alagamentos. O custo total estimado de R$3,9 bilhões será bancado por uma concessão de 30 anos, com o governo local remunerando a projetista apenas quando a licitação for concluída e a concessionária assumir o pagamento, sem desembolso imediato de recursos públicos.</p>

O secretário Zeno Gonçalves ressalvou que o valor é referencial e será atualizado após a análise do Tribunal de Contas, mas a modelagem financeira já está desenhada para atrair investidores privados a um modal que o Brasil expandiu apenas 11% desde a Copa de 2014, como documentou a Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos.

<p>A primeira fase ligará o Terminal Asa Norte ao Terminal Asa Sul percorrendo integralmente a espinha dorsal da W3, eixo que corta o Plano Piloto de ponta a ponta com dezenas de pontos de interesse urbano. A segunda fase estenderá os trilhos até o aeroporto, criando uma conexão direta entre a rede hoteleira da Asa Sul, o centro administrativo e o principal terminal aéreo da capital federal, percurso que hoje depende quase exclusivamente de ônibus e automóveis particulares.</p>

<p>Brasília não está sozinha nesse movimento de retomada dos trilhos. O Distrito Federal também assinou ordem de serviço para estudar um VLT ligando Ceilândia e Taguatinga pela Avenida Hélio Prates, conectando as duas maiores cidades-satélite ao Metrô e ao futuro Mercadão Municipal no centro de Ceilândia.</p>

<p>A revisão do Plano Diretor de Transporte Urbano indicou que a demanda da Hélio Prates exige um veículo de maior capacidade que os ônibus atuais, e o VLT apareceu como resposta técnica natural, segundo declarou o secretário de Obras Valter Casimiro ao anunciar os estudos em janeiro. Em paralelo, o cenário nacional reforça a relevância do projeto da capital.</p>

<p>O Plano Nacional de Ferrovias, prestes a ser lançado pelo Ministério dos Transportes, prevê quase cinco mil quilômetros de novas estradas de ferro com investimento aproximado de R$100 bilhões, enquanto o Novo PAC reservou R$94,2 bilhões até 2026 para o setor ferroviário. Embora esses recursos se concentrem em ferrovias de carga e passageiros de longo curso, o país redescobre os trilhos como prioridade de Estado, e a engenharia fina do VLT de Brasília entrega um precedente técnico valioso para os centros históricos.</p>

<p>A alimentação pelo solo, ao contornar impasses de tombamento, abre caminho para cidades como Ouro Preto, Olinda, Salvador e São Luís, onde catenárias aéreas jamais seriam autorizadas em núcleos protegidos. A licitação do VLT da W3 aguarda a chancela do Tribunal de Contas para ser publicada, mas o caminho técnico já está pavimentado.</p>

<p>Brasília, que desde a Copa do Mundo de 2014 praticamente não expandiu sua rede metroferroviária, está prestes a ganhar um sistema que dialoga com o tombamento em vez de brigar contra ele. Uma lição de urbanismo que começa sob os trilhos e termina no horizonte preservado do Plano Piloto.</p>

<p>Redação</p>

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.