Uma comissão internacional de 56 especialistas propôs reclassificar a obesidade, distinguindo casos clínicos de pré-clínicos. A mudança, liderada pelo cirurgião Francesco Rubino, do King’s College de Londres, foi publicada na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology em janeiro de 2025.
O novo modelo define obesidade clínica apenas quando o excesso de gordura causa disfunção direta de órgãos. Já a obesidade pré-clínica caracteriza-se por aumento de peso com função orgânica preservada, representando um estado de risco, não uma doença.
Quase um bilhão de pessoas no mundo convivem com obesidade, mas o impacto na saúde varia entre os indivíduos. Rubino argumenta que tratar toda obesidade como doença crônica ignora a diversidade de manifestações e pode distorcer políticas públicas e acesso a tratamentos.
O modelo atual baseia-se em associações entre alto índice de massa corporal (IMC) e problemas como diabetes e doenças cardiovasculares. No entanto, duas pessoas com o mesmo IMC podem ter trajetórias de saúde distintas, uma saudável e outra com insuficiência cardíaca.
A definição exige que a gordura em excesso prejudique funções como respiração, metabolismo ou sistema musculoesquelético. A comissão, endossada por 76 organizações médicas, sustenta que a abordagem atual é incompatível com a realidade clínica.
Algumas sociedades científicas resistem à proposta, temendo que o diagnóstico mais restritivo limite o acesso a medicamentos e cirurgias. Rubino rebate que a lógica populacional não se traduz em diagnóstico individual, assim como a medicina não trata toda febre como doença.
O artigo critica a ideia de que a eficácia dos novos agonistas de GLP-1 comprova que toda obesidade é doença. Esses fármacos demonstram que o peso corporal é biologicamente modulável, mas não que a via de apetite esteja patologicamente alterada em todos os casos.
Historicamente, Hipócrates já reconhecia a corpulência como um espectro. A visão do século XX, baseada em tabelas de peso ideal, consolidou a obesidade como fator de risco, algo que a nova classificação pretende superar.
A distinção entre pré-clínico e clínico permite tratar risco como risco e doença como doença. A expectativa é que a reclassificação oriente políticas de saúde mais justas e evite estigmatizações.
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