A aritmética eleitoral brasileira raramente cabe num decimal, e a pesquisa Real Time Big Data divulgada neste fim de semana é um bom exemplo disso. Quando o instituto registra Lula com 45% no segundo turno contra 40% de Flávio Bolsonaro, o que parece uma diferença modesta de cinco pontos se traduz, no eleitorado de 158 milhões de pessoas aptas a votar em outubro, em quase oito milhões de votos de vantagem. É a primeira vez no ciclo de 2026 que o petista abre uma distância que escapa da margem de erro, e o número chega num momento em que o governo precisava de ar.
O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-05864/2026, ouviu 2 mil eleitores entre 29 e 30 de maio e trabalha com margem de dois pontos para mais ou para menos. Cada ponto percentual, nesse universo, vale cerca de 1,6 milhão de eleitores, e é com essa régua que vale a pena ler o resto da pesquisa. O quadro de junho inverte o de maio, quando Flávio liderava o segundo turno por um ponto. Em trinta dias, Lula somou pouco mais de três milhões de votos e o adversário perdeu mais de seis, um deslocamento de quase dez milhões de brasileiros que mudaram de lado ou abandonaram a candidatura bolsonarista.
A pesquisa espontânea, aquela em que o eleitor responde sem nenhum cartão de candidato à frente, confirma que a polarização continua sendo a gramática da disputa. Lula cresceu de 31% para 33% e Flávio oscilou de 24% para 25%, enquanto a fatia de indecisos encolheu de 24% para 21%. São quase cinco milhões de eleitores que saíram da zona cinzenta do não sei num único mês, e quase todos foram parar nos dois polos. O debate sobre terceira via ocupa as colunas da imprensa corporativa, mas o eleitor comum, pego de surpresa, ainda recita o duelo que partiu o país em 2022.
No primeiro turno estimulado a fotografia é parecida. Lula aparece com 38%, o equivalente a cerca de sessenta milhões de votos, contra 31% de Flávio, quase 49 milhões. A distância de sete pontos significa mais de onze milhões de eleitores de folga, espaço suficiente para o Planalto ditar o ritmo do debate nacional sem a sufocação das pesquisas anteriores. Os dois líderes recuaram dois e três pontos respectivamente com a entrada de Aécio Neves e Joaquim Barbosa no tabuleiro, mas o estrago real ficou do lado da oposição.
A direita se fragmenta e Renan Santos colhe os cacos
O dado mais subestimado da pesquisa não está nos líderes, e sim no terceiro lugar. Renan Santos, do Missão, dobrou de tamanho na estimulada, de 3% para 6%, e converteu em quase cinco milhões de votos novos o desgaste do bolsonarismo. Ele agora divide a terceira posição com Ronaldo Caiado, que governa Goiás e oscilou de 5% para 6%, enquanto Romeu Zema patina nos mesmos 4%. A soma dessas candidaturas desenha um eleitorado conservador que procura saída fora da tutela do clã, e o discurso antissistema do MBL se mostra mais eficiente para capturar esse voto do que a tese de bolsonarismo moderado que Flávio tenta vender.
A fratura tem endereço geracional. Entre os eleitores de 16 a 34 anos, Renan Santos saltou de 4% para 9% em um único mês, enquanto Lula e Flávio recuaram dois pontos cada nessa faixa. É na juventude que o duelo principal mais se aperta e onde o discurso digital da nova direita encontra o terreno mais fértil.
Há aqui um paralelo histórico que merece registro. O mesmo movimento que Jair Bolsonaro fez em 2018, quando canibalizou a direita tradicional pela borda mais radical, começa a se voltar contra o próprio herdeiro. Renan Santos ocupa o nicho do insurgente digital que já não pertence ao sobrenome Bolsonaro, e essa fratura, se persistir até a convenção de julho, pode condenar a oposição a chegar dividida ao primeiro turno. A divisão da direita é, hoje, o maior ativo eleitoral de Lula, mais do que qualquer índice de aprovação.
A leitura por gênero reforça o ponto. As mulheres são pouco mais de metade do eleitorado, perto de 82 milhões de eleitoras, e nesse contingente Lula mantém uma liderança de doze pontos no primeiro turno, 41% contra 29%. Em números absolutos, isso representa perto de dez milhões de mulheres de diferença, um colchão que sozinho explica boa parte da vantagem nacional. Entre os homens a disputa é um empate técnico, 34% a 33%, o que mostra que a eleição de 2026, como a de 2022, será decidida no voto feminino.
O recorte religioso, levantado na rodada de maio, ajuda a entender o teto de cada lado. Entre os evangélicos, Flávio lidera com folga, 41% contra 31% de Lula, no único grupo em que o bolsonarismo se impõe. Entre católicos o jogo se inverte, 43% a 31% para o petista, e entre quem não tem religião a vantagem de Lula chega a 44% contra 33%. A muralha evangélica segue sustentando a oposição enquanto o restante do país pende para o governo.
A geografia do voto repete o mapa conhecido, com uma nuance. Ainda em maio, o Nordeste blindava Lula com 52% contra 25%, e o Sul era de Flávio, 43% a 32%. Norte, Sudeste e Centro-Oeste apareciam empatados, as três regiões que costumam decidir a eleição no detalhe.
O alerta amarelo mora no andar de cima
Se a pesquisa traz uma boa notícia para a esquerda, ela vem acompanhada de um sinal que o Planalto erraria em ignorar. Entre os eleitores que ganham mais de cinco salários mínimos, Lula despencou dez pontos num só mês, de 38% para 28%, a pior variação de todo o levantamento. O voto que saiu dele não migrou para Flávio, que também recuou nesse extrato, e sim para a terceira via, com Renan Santos saltando para 11% e Caiado segurando 10%.
A tentação seria minimizar o número, porque a alta renda é uma fatia estreita do eleitorado, longe dos milhões que se movem nas faixas mais baixas. Mas a importância desse grupo não está no volume de votos e sim no peso que ele exerce sobre o mercado, a imprensa e a formação de opinião das classes médias urbanas. Quando o topo da pirâmide se desloca dez pontos por causa do ruído em torno da reforma tributária e da pressão das tarifas, o que se mede não é uma perda eleitoral imediata e sim um termômetro de humor que costuma escorrer para baixo. A direita liberal entendeu isso antes do governo e ocupou o espaço.
O contraste com a base do petismo é didático. Na faixa de até dois salários mínimos, que reúne a maioria dos 158 milhões de brasileiros aptos a votar, Lula mantém 45% contra 28% de Flávio, o cinturão de proteção social que sustenta a candidatura governista intacto. É na classe média, de dois a cinco salários, que mora o segundo recado da pesquisa: Flávio caiu quatro pontos e perdeu a liderança que tinha em maio, empatando com Lula em 35%. O eleitorado assalariado e do comércio, que dá o tom da economia das cidades, escapou das mãos do bolsonarismo sem se entregar de vez ao governo.
No agregado, a avaliação do trabalho de Lula acompanha a melhora. A desaprovação caiu de 52% para 50% e rompeu a barreira simbólica da maioria absoluta negativa, enquanto a aprovação subiu um ponto, para 43%. O avanço da nota regular e o recuo do péssimo sugerem que parte dos descontentes migra para uma posição morna, e é nessa zona morna que se ganham eleições no segundo turno. O governo ganha fôlego para negociar a agenda econômica sem o peso de uma rejeição majoritária às costas.
Por fim, um dado que o Planalto deveria transformar em bandeira. Cerca de 22% dos eleitores apontam Lula, espontaneamente, como o principal responsável pela troca da escala 6×1 pela 5×2, um tema que fala diretamente à classe média assalariada e à juventude trabalhadora. São justamente os grupos onde a disputa de 2026 está mais aberta, e onde a terceira via de direita tenta plantar bandeira. A pesquisa de junho mostra um favorito que controla o jogo no segundo turno e amplia a dianteira no primeiro, mas que precisa decidir se quer disputar o andar de cima ou consolidar de vez o chão de fábrica que o elegeu duas vezes.