Uma revelação surpreendente reescreve o que a ciência sabia sobre a navegação dos pombos-correio, apontando que o segredo para encontrar o caminho de casa está em um órgão inesperado: o fígado. Durante décadas, o extraordinário senso de direção dessas aves intrigou pesquisadores, especialmente em dias nublados, quando as referências visuais do sol desaparecem.
A descoberta, publicada em 28 de maio na revista Science e detalhada pela Smithsonian Magazine, sugere que células imunológicas ricas em ferro no fígado atuam como uma bússola interna, captando o campo magnético da Terra e transmitindo informações de orientação ao cérebro. O zoólogo Martin Wikelski, do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, na Alemanha, e a imunologista Clivia Lisowski, da Universidade de Bonn, lideraram a investigação.
Os cientistas analisaram amostras de bicos, olhos, músculos, baços e fígados de pombos e identificaram que macrófagos — células de defesa — localizados no fígado apresentam um tipo raro de magnetismo, o superparamagnetismo. Quando expostas ao campo magnético terrestre, partículas carregadas nessas células se alinham todas na mesma direção, criando um efeito magnético forte o suficiente para, em tese, orientar a ave em longas distâncias.
Para testar a hipótese, a equipe treinou 34 pombos-correio para voar uma rota de aproximadamente 19 quilômetros até seu pombal em Radolfzell, na Alemanha, todos equipados com rastreadores GPS. Metade das aves recebeu uma droga que destruiu a maioria dos macrófagos hepáticos. Em um dia completamente encoberto, sem nenhuma pista solar, os pombos foram levados ao ponto de partida e soltos.
O resultado foi dramático: os pombos com o fígado íntegro retornaram ao pombal em até 70 minutos, voando com precisão. Já os que tiveram as células magnéticas eliminadas ficaram completamente desorientados, voando em círculos e em todas as direções, só conseguindo voltar para casa quando o sol reapareceu em um dia posterior. Eles estavam completamente perdidos, disse Lisowski à publicação Scientific American, classificando a cena como louca.
A descoberta gerou entusiasmo, mas também ceticismo. Enquanto o ecólogo comportamental Albert Kao, da Universidade de Massachusetts Boston, considerou a lógica surpreendentemente plausível, o geobiólogo Joe Kirschvink, do Caltech, afirmou não estar convencido e se disse surpreso que o artigo tenha passado pela revisão da Science. A dúvida reside em como macrófagos com ferro responderiam a um campo magnético tão fraco quanto o da Terra, além de ainda não estar claro como essa informação seria comunicada ao sistema nervoso central.
Os próprios autores reconhecem que os pombos podem contar com múltiplos sistemas de navegação, como proteínas sensíveis à luz nos olhos, minerais magnéticos no bico e até estruturas no ouvido interno. Em um comentário que acompanhou o estudo, o patologista veterinário Simon Spiro e o biólogo Hal Drakesmith sugerem que talvez um mecanismo predomine em longas distâncias, enquanto outro atue na localização fina de destinos específicos — uma redundância natural que faria todo o sentido para quem precisa voltar para casa no escuro.
A pesquisa, ainda que aguarde confirmação independente, abre um novo capítulo na compreensão da magnetorecepção animal, esse sexto sentido usado por tartarugas marinhas, baleias e aves migratórias. O fígado, tantas vezes visto apenas como filtro do organismo, pode estar no centro de um sofisticado GPS biológico que conecta o mundo mineral ao cérebro das aves com uma precisão que a tecnologia humana ainda luta para igualar.