O enviado especial da França para o Líbano, Jean-Yves Le Drian, desembarcou em Beirute com a missão de reverter o enfraquecimento do papel diplomático francês no país. A visita ocorre em um contexto de crise profunda, agravada pelo colapso econômico libanês e pela ocupação israelense de aproximadamente um quinto do território nacional.
Le Drian tem reuniões previstas com o presidente do Líbano, Joseph Aoun, o presidente do Parlamento, Nabih Berri, e o primeiro-ministro, Nawaf Salam. As conversas devem abordar a continuidade da ajuda humanitária às comunidades afetadas, o futuro da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL) e os desdobramentos da ofensiva militar israelense.
O cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos em 16 de abril não interrompeu os ataques diários de Israel contra o Líbano, conforme apontou a Al Jazeera. Mais de três mil pessoas foram mortas e mais de um milhão foram forçadas a abandonar suas casas desde que Israel renovou os bombardeios pesados no início de março.
A nova escalada israelense foi desencadeada depois que o Hezbollah lançou foguetes contra o norte de Israel, em retaliação ao assassinato do líder da República Islâmica do Irã, Ali Khamenei, por ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel contra Teerã. A destruição em larga escala e o sofrimento da população civil libanesa pressionam Paris a agir para não perder completamente sua relevância estratégica na região.
A França mantém laços históricos com o Líbano desde o Mandato Francês (1920-1943), período que definiu as fronteiras do país e introduziu instituições constitucionais. Beirute preservou por décadas sua identidade francófona, sendo chamada de Paris do Oriente Médio, e o idioma francês segue amplamente difundido, especialmente entre as comunidades cristãs.
Os interesses franceses no Líbano não são apenas simbólicos. A TotalEnergies está envolvida na exploração de gás em águas libanesas, enquanto a gigante de navegação CMA CGM considera o Porto de Beirute uma peça fundamental de sua rede logística no Mediterrâneo, conectando operações comerciais que se estendem por toda a região.
Analistas ouvidos pela Al Jazeera indicam que Paris observa com preocupação a expansão da presença dos Estados Unidos no Líbano. Washington deixou de ser apenas mediadora e passou a intervir diretamente no cenário político. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, agiu para neutralizar os apelos do líder do Hezbollah, Naim Qassem, pela queda do governo de Nawaf Salam, enquanto o presidente Joe Biden alega ter estabelecido contato direto com representantes do movimento libanês.
O jornalista e analista libanês Souhayb Jawhar afirmou à Al Jazeera que há uma genuína preocupação francesa com o declínio de sua influência nos últimos anos. Jawhar explicou que a maioria das grandes iniciativas sobre o futuro libanês agora passa por Washington ou por capitais do Golfo, reduzindo o papel francês ao de um parceiro secundário.
A França tenta preservar o que lhe resta de influência apostando em instrumentos como a ajuda humanitária — 17 milhões de euros liberados em maio pelo Ministério para Europa e Relações Exteriores — e seu papel de liderança dentro da UNIFIL, cujo mandato expira ainda neste ano. Autoridades francesas já discutem a possibilidade de formação de uma força multinacional que suceda a missão da ONU e garanta a Paris uma função contínua na segurança do sul libanês.
O apoio de longa data ao exército libanês é outra âncora da estratégia francesa, já que a preservação das instituições estatais evita um vácuo que poderia ser preenchido por potências regionais rivais. Segundo Karim Safieddine, pesquisador do Tahrir Institute for Middle East Policy, a França é sempre cautelosa diante de confrontos que possam prejudicar seus vínculos na região e prefere abordagens convencionais que mantenham o status quo.
Na prática, a diplomacia francesa aposta mais em sua densa rede de contatos políticos, econômicos e culturais do que em instrumentos de força bruta. O especialista Khalil Helou resumiu o dilema francês ao lembrar que, embora Paris mantenha relações diplomáticas com Israel, não tem nenhuma alavancagem para impor um cessar-fogo — o que a obriga a se reinventar para não ser completamente marginalizada no tabuleiro libanês.
Com informações de https://www.aljazeera.com/.