Índia transforma Grande Nicobar em sentinela estratégica contra China no Estreito de Malaca

Ilustração editorial sobre Índia transforma Grande Nicobar em sentinela estratégica contra China no Estreito de Malaca. (Ilustração: Cafezinho / Wan 2.6)

O governo da Índia avança com planos para construir na remota ilha Grande Nicobar um complexo portuário e militar que pode redefinir o equilíbrio estratégico do Oceano Índico. O megaprojeto, orçado em US$ 11 bilhões, é denunciado por ambientalistas e lideranças indígenas como uma tragédia ecológica e social.

A ilha, localizada a apenas 2,8 km do canal Phillip, em Cingapura, está posicionada na entrada ocidental do Estreito de Malaca, passagem obrigatória de um terço do comércio marítimo mundial e de 80% do petróleo que abastece a China. O primeiro-ministro Narendra Modi transformou a ilha na peça central da projeção indiana no Indo-Pacífico.

Conforme reportagem da Al Jazeera, a obra inclui um terminal de transbordo, um aeroporto de uso civil e militar, uma termelétrica e uma cidade para 350 mil pessoas — um salto populacional de 4.000% sobre os poucos milhares de habitantes atuais. A justificativa oficial migrou do discurso econômico para a defesa nacional, em meio a crescentes críticas internacionais.

Ex-vice-chefe da Marinha da Índia, o almirante Shekhar Sinha afirmou que a posição da ilha oferece à Índia uma vantagem na consciência situacional marítima, permitindo monitorar todo o tráfego que entra e sai de Malaca. Ele descartou comparações com o Estreito de Ormuz, usado pelo Irã como alavanca diplomática, e classificou como irreal a ideia de que Nova Délhi pudesse bloquear a passagem em um conflito com a China.

O projeto enfrenta forte resistência no campo dos direitos humanos e da ecologia. Em fevereiro de 2024, 39 especialistas em genocídio enviaram carta à presidente Droupadi Murmu advertindo que o empreendimento representaria uma sentença de morte para os Shompen, tribo seminômade que habita as florestas densas do interior da ilha.

A devastação ambiental inclui o desmatamento de quase 964 mil árvores, a desapropriação de territórios ancestrais dos Nicobareses — comunidade que vive da pesca — e a instalação de infraestrutura pesada em uma das regiões de maior biodiversidade do planeta. Ao menos metade da área escolhida sobrepõe-se a reservas tribais, protegidas por lei desde a independência da Índia.

O líder da oposição, Rahul Gandhi, visitou o local e descreveu a iniciativa como uma das maiores fraudes e crimes contra o patrimônio natural e tribal da história do país. Ele esteve no Farol Indira Point, extremo sul da ilha, que desde o tsunami de 2004 permanece parcialmente submerso — um testemunho da fragilidade geológica da região.

O arquipélago está localizado na zona sísmica 5, a categoria de maior risco para terremotos, o que torna qualquer construção de grande porte ainda mais vulnerável. Para Manish Chandi, pesquisador com mais de duas décadas de estudos nas ilhas, o motor do projeto sempre foi comercial, e a guinada para o discurso de segurança nacional serve apenas à narrativa nacionalista do governo Modi.

A Grande Nicobar, que nunca recebeu um censo completo e tem população estimada em menos de 10 mil pessoas, tornou-se laboratório de um modelo de desenvolvimento que, para críticos, beira o colonial. O futuro da ilha está dividido entre a ambição de Nova Délhi e a resistência de quem vê no projeto uma ameaça existencial.

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