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Carvalhos milenares guardam cicatriz da Peste Negra no Mediterrâneo

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Árvores antigas de Quercus ilex e Quercus petraea em Montecristo Island, na Itália. (Foto: phys.org)
Árvores antigas de Quercus ilex e Quercus petraea em Montecristo Island, na Itália. (Foto: phys.org)

Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) revela que os carvalhos mais antigos do Mediterrâneo guardam um registro silencioso da Peste Negra, pandemia que dizimou a população europeia a partir de 1347. A pesquisa demonstrou um pulso intenso de regeneração florestal a partir do início dos anos 1400, poucas décadas após o colapso populacional reduzir drasticamente a pressão humana sobre a paisagem.

A equipe de cientistas italianos, liderada pelo professor Gianluca Piovesan, da Universidade da Toscana, concentrou-se em duas populações de carvalhos: a azinheira (Quercus ilex) da Ilha de Montecristo, na costa da Toscana, e o carvalho-alvo (Quercus petraea) das montanhas de Aspromonte, no sul do país. Apesar das diferenças ecológicas, ambas as populações exibiram um padrão semelhante, com a maioria das árvores mais antigas germinando entre 1400 e 1650, período marcado por epidemias recorrentes de peste no Mediterrâneo.

Os pesquisadores utilizaram datação por radiocarbono de última geração para determinar a idade de exemplares que, em muitos casos, estão ocos ou não apresentam anéis de crescimento legíveis. O método, conduzido no laboratório CEDAD da Universidade de Salento, utiliza um novo acelerador de partículas, representando, segundo o diretor do centro, Lucio Calcagnile, tecnologia de ponta em nível internacional. Com fragmentos minúsculos de madeira interna, foi possível obter idades absolutas de altíssima precisão.

Quando a pressão humana diminui, os ecossistemas florestais podem se recuperar em poucas décadas, explicou Piovesan, professor de mudanças globais e rewilding na Universidade da Toscana. Podemos literalmente ver a marca do colapso populacional humano que se seguiu à Peste Negra na estrutura etária das florestas mediterrâneas. A pesquisa, detalhada pelo portal Phys.org, destaca que, na Ilha de Montecristo, a recuperação foi rápida, com um pico de estabelecimento de novas árvores em cerca de cem anos. Já nas montanhas de Aspromonte, a regeneração foi mais lenta, provavelmente devido a um ecossistema mais degradado e a condições ambientais mais severas.

Um dos achados mais surpreendentes do estudo foi a longevidade excepcional dessas populações. As azinheiras de Montecristo alcançam até 950 anos de idade, ampliando em cerca de dois séculos as estimativas anteriores para árvores perenes mediterrâneas. Os dados também derrubaram o mito de que árvores grandes são necessariamente antigas. Alguns dos indivíduos mais velhos encontrados tinham crescimento lento e diâmetros modestos em comparação com árvores mais jovens. Longevidade não tem a ver com crescer rápido ou ficar grande, afirmou Michele Baliva, dendroecologista da Universidade da Toscana. Tem a ver com sobreviver ao longo de séculos sob condições ambientais mutáveis.

O estudo lança luz sobre o papel das árvores antigas como arquivos ecológicos vivos. A gama de histórias que as árvores antigas podem nos contar foi enriquecida pelas abordagens de ponta para datação por radiocarbono usadas neste trabalho, ligando um momento trágico da história humana ao florescimento da natureza selvagem, comentou Chuck Cannon, diretor do Centro de Pesquisa Aplicada para Conservação de Plantas Tropicais no Jardim Botânico Tropical de Xishuangbanna, na China. A descoberta confirma que as florestas são testemunhas silenciosas de eventos humanos de grande escala, preservando em sua idade e distribuição o registro de pandemias, colapsos demográficos e mudanças no uso da terra.

Para os pesquisadores, as implicações do estudo vão além da história medieval. Em um mundo que enfrenta mudanças climáticas aceleradas e perda de biodiversidade, a pesquisa sugere que reduzir a pressão humana sobre os ecossistemas pode desencadear uma recuperação florestal em larga escala, assim como ocorreu há quase 700 anos. Áreas protegidas são fundamentais para conservar a biodiversidade, mas também são laboratórios vivos da Terra, ajudando-nos a descobrir como as interações entre nossa espécie e a natureza evoluíram ao longo dos séculos, concluiu Alessandro Chiarucci, professor de botânica aplicada da Universidade de Bolonha.

Os carvalhos milenares de Montecristo e Aspromonte enfrentam agora ameaças contemporâneas, como os danos causados por cabras selvagens, e exigem esforços redobrados de conservação. Para o general Raffaele Manicone, chefe do Grupo de Biodiversidade dos Carabinieri Forestali (CUFAA), esses exemplares representam um patrimônio natural insubstituível, e sua conservação é mandatória, especialmente diante das ameaças crescentes à biodiversidade impostas pelas mudanças globais. As árvores mais antigas da Europa não são apenas sobreviventes de pestes e séculos de perturbação humana: são também um modelo vivo de resiliência para os desafios que virão.

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