O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, suspendeu uma pesquisa da AtlasIntel que mostrava o senador Flávio Bolsonaro (PL) caindo seis pontos percentuais na intenção de voto. A decisão, tomada a pedido do próprio PL, gerou uma onda de críticas de especialistas em pesquisa eleitoral, que classificaram a medida como censura e alertaram para um precedente perigoso às vésperas das eleições de 2026.
Segundo reportagem do Estadão, o levantamento da AtlasIntel apontava Flávio com 41,8% das intenções de voto contra 48,9% do presidente Lula (PT) em um eventual segundo turno. A pesquisa foi divulgada em 19 de maio, dias após a revelação de um áudio em que o senador pede recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, sobre a trajetória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Decisão frágil e inconstitucional
João Francisco Meira, presidente do Conselho de Opinião Pública da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep) e cofundador da Vox Populi, não poupou críticas à decisão de Nunes Marques. Em entrevista ao Estadão, Meira classificou a medida como um ato de censura baseado em argumentos frágeis e inconstitucionais.
“Não há previsão constitucional para suspender a publicação de uma pesquisa. Isso fere a liberdade de divulgação de pesquisas. Além de lamentável do ponto de vista ético e normativo, a decisão é inútil do ponto de vista prático, já que a pesquisa já é de domínio público”, afirmou Meira, que tem 40 anos de experiência no setor.
O PL argumentou que a AtlasIntel teria induzido os entrevistados de forma negativa ao incluir perguntas sobre o escândalo do Banco Master e o áudio de Flávio pedindo dinheiro a Vorcaro. No entanto, Meira rebateu a alegação com fatos concretos: o questionário da pesquisa, disponível no site do TSE, mostra que as perguntas sobre intenção de voto aparecem logo no início, enquanto as questões sobre o Banco Master só surgem a partir da 11ª pergunta. O áudio da conversa entre Flávio e Vorcaro é exibido apenas ao final, quando o entrevistado já respondeu a todo o questionário.
“Como o áudio, apresentado apenas no final do questionário, poderia de alguma forma afetar a intenção de voto, que foi medida muito antes?”, questionou Meira. “Mesmo que o entrevistado pudesse voltar às perguntas anteriores e alterar suas respostas após ter acesso ao conteúdo, isso não representaria um problema, já que mudanças de opinião ao longo de uma entrevista são legítimas.”
Precedente perigoso para as eleições
Oswaldo Amaral, professor do Departamento de Ciência Política da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Opinião Pública, também criticou a decisão de Nunes Marques. “A decisão é tecnicamente muito frágil e se configura como um ato de censura. Isso pode ser muito perigoso, especialmente na reta final das eleições, pode se tornar um expediente utilizado para cercear a liberdade de expressão e a divulgação de informações que são relevantes para o eleitor tomar a sua decisão”, alertou.
Raphael Nishimura, estatístico na Universidade de Michigan, reforçou que o áudio só foi exibido ao final da pesquisa, o que torna insustentável a alegação de que teria influenciado as respostas sobre intenção de voto. “O argumento de que a exibição do áudio poderia ter influenciado a forma como o entrevistado respondeu à pergunta de intenção de voto não faz sentido, porque se tratam, na prática, de dois questionários separados”, explicou.
Nishimura ainda destacou que a decisão do ministro cria um precedente perigoso ao sugerir que perguntas sobre eventos políticos podem “contaminar” um levantamento eleitoral. “Não se trata de uma particularidade do caso Master ou de Flávio Bolsonaro: é comum que institutos incluam perguntas sobre acontecimentos recentes para avaliar como essas informações podem afetar a opinião dos eleitores e a disputa eleitoral”, afirmou.
AtlasIntel defende metodologia
A AtlasIntel rebateu as acusações e afirmou que não houve indução dos entrevistados. Segundo a empresa, o questionário principal da pesquisa foi concluído integralmente antes de qualquer contato dos participantes com o áudio da conversa entre Flávio e Vorcaro.
“Após o encerramento definitivo do questionário — sem qualquer possibilidade de retornar às perguntas anteriores ou alterar respostas já registradas — os participantes eram redirecionados para uma página completamente separada do questionário, onde eram convidados a registrar suas reações enquanto ouviam o áudio”, explicou a AtlasIntel.
A empresa argumentou que o modelo seguiu critérios técnicos e científicos de imparcialidade, transparência e integridade metodológica. Além disso, destacou que outras pesquisas identificaram impacto semelhante do episódio sobre a intenção de voto na candidatura de Flávio Bolsonaro, o que, segundo a AtlasIntel, comprova que os resultados refletem uma reação real da opinião pública.
A decisão monocrática de Nunes Marques tem validade imediata e foi colocada na pauta do TSE desta terça-feira, 9, para referendo dos demais integrantes da Corte. Os ministros poderão manter ou derrubar a suspensão.