O que por décadas parecia uma esfinge inquebrável, uma voz gutural do abismo, finalmente começa a ceder. Duas das cifras mais enigmáticas do assassino do Zodíaco, que teceu uma teia de terror sobre a Califórnia no crepúsculo dos anos 1960, acabam de ser desvendadas por uma alquimia singular de inteligência artificial, criptografia clássica e a incansável persistência de investigadores que operam na fronteira do óbvio.
As soluções agora apresentadas, meticulosamente validadas por alguns dos mais experientes decifradores da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA), convergem para um nome singular: Marvin Merrill. Um homem que, como um espectro do passado, já havia sido apontado como suspeito de outro crime de brutalidade chocante que estremeceu o país décadas antes, o infame assassinato da Dália Negra.
A saga da decifração teve seu ponto de ignição quando o consultor investigativo Alex Baber mergulhou nas entranhas do Z13, um código de 13 caracteres enviado com insolência ao San Francisco Chronicle em abril de 1970, acompanhado da provocação ‘meu nome é’. Baber, com uma abordagem inovadora, aplicou sofisticados métodos de criptoanálise, valiosas ferramentas de IA e os recém-disponibilizados registros censitários para, pacientemente, extrair a sequência cifrada que revelou: Marvin Merrill.
A epifania inicial de Baber, revelada com exclusividade pelo Daily Mail, ganhou uma espantosa segunda camada de verificação que deixou os especialistas em estado de alerta. Este avanço representava a primeira fresta de luz em uma escuridão que parecia perpétua, prometendo reescrever a história de um dos mais notórios criminosos dos EUA.
A confirmação veio de um pesquisador sueco, Thomas Hefner, que, operando independentemente, percebeu que a mesma metodologia se encaixava perfeitamente nos 18 caracteres finais de uma cifra bem mais longa, a Z408, que permanecia sem solução havia mais de meio século. O miolo da Z408 já havia sido parcialmente decifrado em agosto de 1969 pelo engenhoso casal Donald e Bettye Harden, que revelaram frases perturbadoras como ‘gosto de matar pessoas porque é muito divertido’.
Entretanto, aquele trecho final, uma série de 18 símbolos enigmáticos, continuava sendo um amontoado indecifrável, frequentemente descartado como mero preenchimento caótico pelos criptoanalistas — até agora. Hefner intuiu que alguns dos caracteres eram ‘despiste’, deliberadamente inseridos para confundir, uma tática comum em criptografia militar.
Hefner notou cinco ocorrências recorrentes da letra ‘E’ nos 18 símbolos do que ele chamou de Z18, decidindo tratá-las como caracteres de distração. Ao retirá-las, restaram precisamente 13 símbolos, o mesmo número exato de caracteres do Z13. Aplicando, então, a metodologia de Baber — que envolvia substituição homofônica e uma intrincada transposição — sobre um conjunto de símbolos completamente diferente, o resultado foi idêntico: o nome Marvin Merrill emergiu mais uma vez, como um fantasma textual.
A redundância da revelação, a partir de duas cifras distintas e usando uma lógica convergente, é o que confere solidez ímpar a esta descoberta. Para Ed Giorgio, ex-codificador-chefe e ex-decifrador-chefe da NSA, a simetria dos achados é uma confirmação robusta e autônoma, quase como se o próprio Zodíaco estivesse, por duas vezes, sussurrando o mesmo nome através do tempo.
‘Analisamos isso em profundidade e estamos convencidos de que é legítimo’, afirmou Giorgio, pontuando a meticulosidade da validação. Ele trabalhou lado a lado com outros dois veteranos da agência, Patrick Henry e Rich Wisniewski, para submeter a descoberta a um rigoroso processo de provas cruzadas, assegurando que não havia margem para coincidência fortuita ou erro.
Patrick Henry, com sua visão aguçada, foi ainda mais longe ao desenterrar uma espinha dorsal oculta que conecta o Z13 ao horripilante assassinato da Dália Negra, um caso de 1947 em Los Angeles que até hoje gela a espinha. A vítima, Elizabeth Short, foi encontrada com o corpo brutalmente seccionado na altura da cintura e um sorriso macabro esculpido em seu rosto, um detalhe que evoca a teatralidade cruel dos crimes do Zodíaco.
Henry propôs uma hipótese que transcende o convencional: a palavra ‘Elizabeth’ funciona como a chave de decifração, o ‘crib’, do Z13. Numerando as letras pela ordem alfabética e reorganizando a grade de duas linhas e sete colunas que Baber usou para extrair ‘Marvin’ e ‘Merrill’, a sequência original da cifra se refaz com uma precisão matemática inquietante.
O nome da jovem aspirante a atriz, portanto, não apenas assombra o imaginário do crime e o panteão dos mistérios não resolvidos. Parece ter sido usado pelo próprio assassino como uma semente, uma chave secreta para embaralhar sua identidade na cifra. Esta hipótese ganha força abissal porque Merrill, que na época do crime de Short utilizava o sobrenome Margolis, havia sido namorado da vítima e era um dos principais suspeitos do homicídio, embora nunca acusado formalmente.
O reencontro fortuito com a memória da Dália Negra não é, contudo, a única peça nova e enigmática a cair sobre o tabuleiro deste sinistro jogo. Baber revelou que familiares de Merrill começaram a cooperar com as autoridades, um sinal de que décadas de silêncio podem estar se desfazendo. Mais surpreendente ainda, investigadores solicitaram uma amostra de DNA para o caso Short — uma iniciativa inédita em quase oitenta anos de impunidade, que reaquece um dos mais antigos mistérios americanos.
Embora a coleta de DNA tenha sido inicialmente recusada pela família de Merrill, o simples fato de o pedido existir e ser oficial sugere que as engrenagens da forense e da justiça, há muito paralisadas, voltaram a girar sob o peso destas novas evidências. A pressão sobre os familiares e a possibilidade de uma prova irrefutável de ligação entre os crimes e Merrill agora se torna palpável.
Além disso, surgiram imagens inéditas de Merrill ao lado de Bill Robinson, um ex-integrante do Serviço de Inteligência de Sinais do Exército durante a Segunda Guerra Mundial. Essa ligação oferece uma explicação crucial de onde um veterano de Chicago, aparentemente comum, poderia ter extraído o conhecimento de criptografia complexa que as mensagens do Zodíaco exibem em seus mínimos detalhes, conectando a inteligência militar à mente do assassino.
O vídeo, gravado muitos anos após o assassinato de Elizabeth Short, contradiz a versão que ambos os homens deram, afirmando que haviam rompido todo o contato após a guerra. Esta nova evidência joga uma sombra de dúvida sobre seus álibis passados e sugere um laço mais duradouro e talvez cúmplice.
A convergência quase mística entre as cifras Z13 e Z18, a surpreendente chave ‘Elizabeth’, os laços militares de Merrill e a reabertura velada dos exames de DNA desenham uma teia de conexões tão intrincada quanto assustadora, desafiando o ceticismo mais arraigado. Giorgio, com a autoridade de quem navegou nos subterrâneos da criptografia por décadas, resume o feito com clareza: ‘Temos agora duas grandes confirmações independentes de que Alex está certo’. O mistério que devorou décadas de investigação policial, inspirou filmes, livros e obcecou gerações, parece estar, enfim, diante de seu último e derradeiro suspiro, abrindo a porta para a identidade de uma das figuras mais sombrias do crime americano.