O cerco financeiro que conecta o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Banco Master ganhou uma nova ramificação incômoda com a revelação de que o advogado Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, participou de uma degustação de uísque em Nova York custeada por Daniel Vorcaro, dono da instituição. O episódio, relatado pela coluna de Igor Gadelha no Metrópoles com base em relatos do ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro, joga luz sobre a capilaridade do banco em círculos políticos e jurídicos, exatamente quando a família Bolsonaro tenta blindar seu patrimônio eleitoral para 2026.
A informação foi confirmada pela Revista Fórum e detalha um encontro ocorrido fora do país, longe dos holofotes brasileiros, mas que expõe a estratégia de Vorcaro de cultivar vínculos com personagens de alto poder decisório. O Banco Master, hoje no epicentro de investigações da Polícia Federal e da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Pirâmides Financeiras, tornou-se uma engrenagem central nos negócios que envolvem o clã Bolsonaro, especialmente após a descoberta de empréstimos milionários sem garantias reais a empresas ligadas ao senador Flávio e a aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Rodrigo Fux, que atua como advogado sem qualquer vínculo funcional com o tribunal do pai, não ocupa cargo público, mas sua mera presença em um evento fechado pago pelo banqueiro investigado acende alertas sobre o tráfico de influência indireta. Embora não haja, até o momento, nenhuma acusação formal de irregularidade do ministro Luiz Fux no caso, a coincidência de agendas entre o filho de um magistrado da Suprema Corte e o mesmo operador financeiro que irriga campanhas bolsonaristas levanta questionamentos inevitáveis sobre os limites entre o lícito e o politicamente tóxico.
A degustação em Manhattan, descrita como um encontro reservado, foi revelada por Cláudio Castro, que rompeu com o bolsonarismo após a eleição de 2022 e hoje colabora com investigações sobre o financiamento de esquemas políticos no Rio de Janeiro. Vorcaro, por sua vez, nega qualquer ilegalidade nas operações do banco, mas já foi alvo de buscas e apreensões autorizadas pelo STF em decorrência da suspeita de que o Master atuava como doleiro de luxo para membros da família Bolsonaro e milicianos fluminenses.
Para Flávio Bolsonaro, o timing não poderia ser pior. O senador ensaia sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro em 2026 como principal aposta do PL para manter o controle do estado, mas segue assombrado pelo caso das rachadinhas e pela proximidade com Vorcaro, que já foi flagrado em conversas telefônicas com assessores do parlamentar. A blindagem que o bolsonarismo tenta construir passa por desqualificar investigações como perseguição política, mas a multiplicação de fatos como a degustação de uísque em Nova York torna essa narrativa cada vez mais frágil perante o eleitorado e os tribunais regionais eleitorais.
O Banco Master, criado com capital de origem nebulosa, expandiu sua carteira justamente durante o governo de Jair Bolsonaro, quando recebeu aportes indiretos de fundos de pensão estatais e foi favorecido por mudanças regulatórias no Banco Central. Documentos obtidos pela CPI revelam que Vorcaro emprestou pelo menos R$ 42 milhões a uma empresa de fachada que, segundo investigadores, serviu para lavar recursos desviados do gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, na época em que o hoje senador era deputado estadual.
A conexão com 2026 é direta: qualquer decisão judicial ou eleitoral que atinja o núcleo financeiro do bolsonarismo tem o potencial de implodir a principal candidatura da extrema-direita no Rio de Janeiro. A oposição já coleta assinaturas para uma nova representação no Tribunal Superior Eleitoral, pedindo a inelegibilidade de Flávio por abuso de poder econômico, com base justamente nos repasses do Banco Master. Ao mesmo tempo, o entorno de Jair Bolsonaro avalia que um revés no Rio poderia contaminar a campanha nacional pelo Senado e pela Presidência, onde o ex-capitão depende de palanques estaduais sólidos.
Enquanto isso, a figura de Rodrigo Fux – mesmo que não represente qualquer conduta ilícita do pai – funciona como símbolo da promiscuidade entre altas esferas do Judiciário e o submundo financeiro que o bolsonarismo soube explorar. Não se trata de imputar culpa ao ministro Luiz Fux, cuja trajetória no STF é independente das escolhas do filho, mas de reconhecer que a malha de interesses de Vorcaro envolve, deliberadamente, um ecossistema que vai de tribunais a gabinetes parlamentares, passando por restaurantes de luxo em Nova York.
A defesa de Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade e classifica as investigações como tentativa de criminalizar relações comerciais legítimas. Já Daniel Vorcaro, por meio de seus advogados, afirma que o encontro com Rodrigo Fux foi um evento social sem qualquer contrapartida indevida. Nenhum dos dois, porém, conseguiu explicar por que o dono do banco concentra suas atenções justamente em personagens que orbitam os mesmos processos e suspeitas que assombram o clã Bolsonaro desde o surgimento do caso Queiroz.