Defesa de Monique passa por reformulação enquanto processo sobre Henry Borel segue em fase decisiva
O caso Henry Borel ganhou mais um capítulo tenso nesta semana. A advogada Florence Rosa anunciou, na quinta-feira (11/6), que encerrou sua atuação na defesa de Monique Medeiros — mãe do menino assassinado em 2021. A saída não foi silenciosa. Florence tornou a decisão pública pelas redes sociais e deixou clara a razão: divergências profundas sobre a estratégia a adotar daqui em diante.
A advogada explicou que sua contratação tinha um escopo bem definido. Ela atuaria especificamente durante a sessão plenária do Tribunal do Júri. Havia, contudo, a possibilidade de continuar no caso ao longo da fase recursal. Essa perspectiva, porém, não se concretizou.
“Com a chegada de um novo colega à defesa, e, diante de uma legítima incompatibilidade de estratégias defensivas, decidimos, em comum acordo, encerrarmos a nossa atuação no caso”, escreveu Florence em sua publicação.
A partir de agora, outro advogado assume integralmente a condução da defesa de Monique.
O timing da mudança não é trivial. Florence Rosa deixa o caso poucos dias depois de uma decisão judicial que dividiu opiniões no país inteiro. No dia 4 de maio, a juíza Elizabeth Machado Louro concedeu perdão judicial a Monique Medeiros, extinguindo sua pena com base em um recurso previsto no Código Penal.
Ao justificar a concessão, a magistrada destacou a intensa exposição pública que Monique enfrentou ao longo de cinco anos. Ela classificou a situação como uma “perseguição implacável” e um “franco massacre”. Além disso, a juíza levou em conta o fato de Monique ser ré primária e considerou seu histórico como mãe na ponderação final.
A decisão gerou reações intensas — tanto de alívio entre os apoiadores de Monique quanto de indignação entre quem acompanha o caso em nome de Henry.
Jairinho condenado a 44 anos; MP contesta a decisão sobre Monique
Enquanto Monique recebeu o perdão, o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, teve destino bem diferente. O Tribunal do Júri o condenou a 44 anos de prisão pelo assassinato de Henry Borel. Além dele, o médico Jeferson Evangelista Corrêa, assistente técnico da defesa de Jairinho, também recebeu condenação — pelo crime de falsa perícia.
Contudo, a decisão que beneficiou Monique não ficou sem contestação. No dia 6 de junho, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) recorreu formalmente. O órgão questiona a alteração de um dos quesitos submetidos aos jurados durante a votação — especificamente a diferença entre homicídio doloso, que pressupõe intenção de matar, e homicídio culposo, que envolve negligência sem dolo.
Segundo o MPRJ, essa mudança na tipificação ocorreu depois que a votação já havia sido encerrada. Para o órgão, a alteração pode ter influenciado diretamente o resultado relacionado à responsabilização de Monique pela morte do filho. Trata-se de uma questão processual grave, com potencial para modificar o desfecho do caso na fase recursal.
Henry Borel tinha quatro anos quando morreu, em março de 2021, no apartamento em que vivia com a mãe e o então namorado dela, Jairinho, no Rio de Janeiro. A causa da morte foi traumatismo craniano. O caso chocou o Brasil e dominou o noticiário por anos.
Ao longo do processo, emergiram relatos de violência sistemática praticada por Jairinho contra a criança. Testemunhos de ex-parceiras do ex-vereador reforçaram um padrão de comportamento agressivo em relação a filhos de suas namoradas. O papel de Monique nessa dinâmica — o quanto ela sabia, o quanto omitiu e o quanto poderia ter feito — é justamente o núcleo do debate jurídico e moral que ainda não se encerrou.
A saída de Florence Rosa abre uma nova fase para a estratégia jurídica de Monique. Com o Ministério Público recorrendo da decisão que extinguiu sua pena, e com o novo advogado assumindo o caso sem o histórico que Florence construiu durante o julgamento, a defesa precisará se reposicionar rapidamente.
A fase recursal tende a ser tecnicamente exigente. A discussão sobre a alteração do quesito — se ocorreu ou não de forma irregular — demanda argumentos sólidos e domínio dos detalhes processuais do julgamento. Qualquer fragilidade nessa etapa pode reverter o benefício que Monique obteve.
Por enquanto, o nome de Henry Borel permanece no centro de um processo que ainda não chegou ao fim. E cada movimento jurídico que se sucede reacende a pergunta que o Brasil inteiro fez em 2021: quem falhou com esse menino — e em que medida cada um dos adultos ao redor dele deve responder por isso.