Arqueólogos revelam naufrágios da Era Dourada da Pirataria nas Bahamas

Arqueólogos realizam mergulho para documentar naufrágios no fundo do mar nas Bahamas. (Foto: theartnewspaper.com)

As lendas de figuras como Barba Negra e Henry Every, piratas que por séculos assombraram os mares do Caribe, sempre cativaram o imaginário coletivo. Contudo, seus rastros submersos nas águas das Bahamas permaneceram, em grande parte, um enigma inexplorado—até os dias atuais. Uma pioneira expedição arqueológica subaquática em Nassau Harbour trouxe à luz seis naufrágios, com três deles diretamente conectados à ‘idade de ouro da pirataria’, período que se estendeu do final dos anos 1600 ao início dos anos 1700.

Entre os despojos dos navios afundados, emergem artefatos que ressoam com a vida pirata: cachimbos de tabaco de cerâmica, canhões de ferro robustos, balas de mosquete de chumbo e uma arma giratória, testemunhos silenciosos de uma era de anarquia marítima. Nassau, estrategicamente localizada na Ilha de New Providence, já foi o coração de uma ‘república de piratas’, abrigando mais de 1.000 bucaneiros em seu apogeu no alvorecer do século XVIII. A posição isolada da cidade, combinada com sua proximidade a vitais rotas de navegação, configurou-a como um refúgio ideal para os fora-da-lei dos oceanos.

A história registra que, em 1718, Woodes Rogers, o então governador britânico de New Providence, documentou um total de 40 embarcações afundadas e incendiadas na região—uma tática amplamente empregada para erradicar as provas dos crimes cometidos pelos piratas. Muitos outros navios sucumbiram posteriormente às intempéries do clima e às implacáveis correntes marinhas. Um abrangente banco de dados, meticulosamente construído pelo projeto internacional New Providence Pirates Expedition e pela renomada empresa privada de arqueologia marítima Allen Exploration, catalogou mais de 504 embarcações perdidas entre 1651 e os albores da Primeira Guerra Mundial, revelando a densidade histórica do leito marinho local.

Lamentavelmente, desde a década de 1960, uma parcela significativa do inestimável patrimônio submerso de Nassau Harbour foi irremediavelmente danificada por operações de dragagem, destinadas a abrir caminho para a crescente demanda de navios de cruzeiro modernos. Atualmente, o mergulho na área é estritamente regulamentado e perigoso, devido ao intenso e constante tráfego marítimo. A New Providence Pirates Expedition, uma iniciativa conjunta da organização sem fins lucrativos londrina Wreckwatch e da Corporação de Antiguidades, Monumentos e Museus das Bahamas, recebeu a inédita licença oficial para investigar a presença de vestígios de pirataria no movimentado porto.

O projeto culminou após dois anos de pesquisa exaustiva, que incorporou desde avançadas imagens de satélite até o inestimável conhecimento ancestral da comunidade local. “Não existia nenhum estudo base,” confidencia Sean Kingsley, arqueólogo marinho e co-diretor do projeto, além de fundador da Wreckwatch, ao The Art Newspaper. “As chances de retornarmos para casa de mãos vazias eram consideráveis. O tráfego marítimo incessante, correntes marítimas de grande força, a presença de tubarões e vastas extensões do antigo leito do porto já destruídas transformaram o planejamento em um desafio de complexidade ímpar.”

Uma expedição, realizada no outono de 2025, coroou os esforços com a localização dos naufrágios, três dos quais remontam à era áurea dos piratas e seu período imediatamente subsequente. Um desses achados notáveis apresenta uma quilha carbonizada, uma característica que se alinha perfeitamente com a prática comum dos piratas de incendiar suas próprias embarcações para ocultar provas ou evitar a captura. Kingsley, com uma dose calculada de mistério, sugere que a quilha poderia ser um remanescente do célebre navio Fancy, utilizado pelo notório Henry Every para assaltar a frota do Grão Mogol, carregada de tesouros, no Mar Arábico em 1695.

O navio Fancy, após sua audaciosa saga, teria sido desmantelado e subsequentemente abandonado em Nassau Harbour. “A quilha é de um naufrágio antigo, construída no estilo predominante na era dos piratas e com um tamanho comparável ao do Fancy”, aponta o arqueólogo marinho Sean Kingsley, embora a identificação permaneça envolta em um véu de incerteza. Ele acrescenta que “piratas não mantinham registros, e muitos navios afundaram ali”, sublinhando que apenas análises adicionais poderão, talvez, decifrar mais profundamente esses segredos submersos.

Uma descoberta igualmente surpreendente emergiu em uma área que sofreu extensivas operações de dragagem, onde foram reveladas tábuas de quilha, equipamentos de bordo essenciais, tijolos de uma cozinha de navio e um notável conjunto de 143 cachimbos de cerâmica. Estes cachimbos, meticulosamente adornados com símbolos como unicórnios, cavalos, coroas e a insígnia real da Inglaterra, indicam a provável proveniência de um navio que navegava de Londres para Nassau por volta dos anos 1740.

“Os cachimbos de tabaco forjam um vínculo direto entre um passatempo favorito de marinheiros e piratas”, explica Kingsley, elucidando a conexão íntima entre o lazer e a identidade desses personagens históricos. O co-diretor do projeto também observa que “piratas e corsários eram patriotas, e a maioria recusava-se a atacar seus compatriotas ingleses navegando sob a bandeira nacional”, uma faceta muitas vezes esquecida de sua complexa moral.

A New Providence Pirates Expedition é movida por um ímpeto de retificar décadas de saques indiscriminados nas Bahamas, uma prática que foi amplamente tolerada e legalizada até o ano de 1999. “Dos anos 1960 até o início dos anos 1980, as Bahamas testemunharam uma exploração desenfreada de tesouros”, revela Sean Kingsley, destacando um período sombrio na história da preservação do patrimônio. Ele enfatiza que “nosso objetivo é reverter isso, atuando como guardiões em apoio às Bahamas, e mostrar, através das descobertas, como eram construídos os navios piratas e como os piratas viviam”, buscando uma nova narrativa de conservação e compreensão.

A expedição concentrou seus esforços primariamente na documentação detalhada dos sítios, embora os cachimbos, tijolos, amostras de madeira e outros artefatos menores tenham sido cuidadosamente recuperados para estudos adicionais e conservação. “Os materiais recuperados pertencem às Bahamas e, uma vez concluída a conservação, farão parte inalienável do patrimônio do país”, assevera Michael Pateman, o outro co-diretor do projeto e diretor do Museu Marítimo das Bahamas, reforçando o compromisso com a soberania cultural da nação insular.

O museu, inaugurado em 2022 pelo renomado explorador subaquático Carl Allen, fundador da Allen Exploration, já alberga preciosos vestígios do galeão espanhol Nuestra Señora de las Maravillas, que se perdeu ao norte das Bahamas em 1656. O diretor Pateman aponta para os desafios intrínsecos à preservação do vasto patrimônio submerso da região, dada a imensidão do arquipélago e a escassez de recursos disponíveis para tal empreitada colossal.

A New Providence Pirates Expedition, que ganhou visibilidade através da série documental Wreckwatch TV e da revista Wreckwatch Magazine, aspira a amplificar a conscientização pública sobre a importância desses achados. “Espero que essas descobertas ajudem as pessoas a entender que o verdadeiro valor de um naufrágio não reside no ouro, prata ou gemas, mas nas histórias que contam sobre as Bahamas e no modo como podem apoiar o turismo cultural quando gerenciadas adequadamente”, reflete Michael Pateman, projetando um futuro onde a história e a economia caminham juntas.

Novas descobertas, sem dúvida, estão por vir e prometem aprofundar ainda mais nosso conhecimento sobre esse período fascinante. “Gostaríamos de retornar e documentar os naufrágios com maior detalhe e buscar pequenos achados”, declara Sean Kingsley, com a promessa de um futuro repleto de explorações. O arqueólogo conclui, quase poeticamente, que “há trabalho suficiente para várias vidas aqui”, sugerindo um universo de mistérios ainda a serem desvendados sob as águas turquesa do Caribe.

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