Qualquer brasileiro que tentasse usar os dois modelos de inteligência artificial mais poderosos da Anthropic na noite de sexta-feira encontrou a porta fechada. O governo dos Estados Unidos ordenou à empresa que bloqueasse o acesso de todo estrangeiro, dentro ou fora do território americano, ao Fable 5 e ao Mythos 5.
Diante da ordem, a Anthropic, empresa de inteligência artificial dos Estados Unidos e criadora do Claude, optou por desligar os dois modelos para todos os clientes do planeta. É a primeira vez que uma grande desenvolvedora retira do ar um modelo já em operação por intervenção do governo federal, segundo o comunicado da própria empresa.
A medida atinge em cheio o Sul Global. Para a legislação americana, um usuário em São Paulo, em Lagos ou em Jacarta é simplesmente um estrangeiro, e passou a ser tratado como risco de segurança nacional da maior potência do mundo.
A empresa diz ter recebido a diretiva às 17h21 de Washington, sem que a carta detalhasse a preocupação concreta de segurança. O entendimento da Anthropic é que o governo tomou conhecimento de uma técnica para burlar as travas do Fable 5, o chamado jailbreak.
Segundo a companhia, a técnica em questão consistia em pedir ao modelo que lesse um trecho de código e corrigisse falhas, revelando um punhado de vulnerabilidades menores já conhecidas. A Anthropic afirma que modelos rivais, como o GPT-5.5, da também americana OpenAI, encontram as mesmas brechas sem precisar de qualquer artifício.
A empresa classificou a decisão como um mal-entendido e disse trabalhar para restaurar o acesso. Em sua avaliação, recolher um produto usado por centenas de milhões de pessoas por causa de uma falha estreita inviabilizaria o lançamento de qualquer modelo de fronteira no setor.
O Mythos nasceu de uma versão anterior voltada à pesquisa de segurança, capaz de caçar e explorar falhas de software num ritmo inédito. Essa potência assustou tanto o governo quanto Wall Street, e ajudou a moldar a política de inteligência artificial da Casa Branca.
Em 2 de junho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem executiva que pede às empresas o envio voluntário de seus modelos de ponta ao governo até 30 dias antes do lançamento público. O prazo havia sido fixado em 90 dias numa versão anterior, e foi reduzido após a queda de braço entre as alas de segurança nacional e de desregulamentação.
A ordem também cria uma central de cibersegurança coordenada pelo Tesouro para rastrear e corrigir vulnerabilidades. O Mythos foi um dos gatilhos desse arcabouço, que transforma o escrutínio prévio dos modelos numa rotina de Estado.
O bloqueio se apoia numa peça jurídica peculiar, a regra de exportação presumida. Mostrar uma tecnologia controlada a um estrangeiro dentro dos Estados Unidos equivale, na letra da lei, a exportá-la, motivo pelo qual até os próprios funcionários estrangeiros da Anthropic ficaram trancados para fora do modelo que ajudaram a construir.
O episódio é o capítulo mais recente de um atrito que se arrasta há meses entre a empresa e o governo Trump. Em março, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, classificou a Anthropic como risco para a cadeia de suprimentos depois que a companhia recusou liberar o Claude para vigilância doméstica em massa e armas autônomas letais sem restrições.
Aquele veto levou a uma proibição do uso da Anthropic em contratos de defesa, derrubada em seguida pela juíza federal Rita Lin, em São Francisco. Ela enquadrou a ação do governo como retaliação ilegal contra a liberdade de expressão da empresa.
A nova ordem provocou reações duras dentro dos próprios Estados Unidos. Dean Ball, especialista em política de inteligência artificial que passou pela gestão Trump, chamou a decisão de caricata e apontou a contradição de um governo que libera a venda de chips avançados para a China enquanto barra britânicos e todos os demais estrangeiros de usar os melhores modelos americanos.
Chris McGuire, pesquisador do Council on Foreign Relations, afirmou que a estratégia de controle de exportações do Departamento de Comércio se tornou incoerente e autossabotadora. Para analistas ouvidos pela imprensa internacional, Washington passou a usar o acesso à inteligência artificial como arma geopolítica.
A ironia é que a Anthropic vinha sendo uma das vozes mais agressivas por controles contra a China, chegando a denunciar supostos esquemas de contrabando de chips e a bloquear empresas de capital chinês de seus serviços. Agora a mesma lógica de fronteira tecnológica se voltou contra a própria companhia e contra o resto do mundo.
O pano de fundo é a disputa por hegemonia entre Estados Unidos e China, em que os modelos de fronteira deixaram de ser produtos de consumo para virar ativos estratégicos de poder nacional. O que está em jogo não é mais quem tem o melhor assistente virtual, e sim quem controla o acesso à própria capacidade de processar conhecimento.
Para países como o Brasil, o recado é direto e incômodo. Depender da infraestrutura de inteligência artificial de uma única potência significa aceitar que o acesso pode ser cortado da noite para o dia, por decisão de um governo estrangeiro, e reforça o argumento por soberania tecnológica e por uma ordem digital multipolar.