Custo de ‘dark horse’ em R$ 75 milhões não encobre o elo Flávio Bolsonaro-Vorcaro

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A produção da cinebiografia ‘Dark Horse’, filme em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro, custou US$ 13,4 milhões — valor equivalente a cerca de R$ 75 milhões. Uma perícia privada contratada pela defesa da produtora Go Up Entertainment tenta estabelecer uma narrativa de blindagem financeira, atestando que a obra não usou verbas públicas. No entanto, o laudo omite o ponto central do escândalo político: o envolvimento do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, e do ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.

Reportagem da Folha, baseada no documento anexado a um inquérito policial, revela que a defesa busca antecipar o trabalho da polícia, tentando sustentar a inexistência de desvios investigados. A perícia privada afirma que o filme não recebeu incentivos ou recursos públicos, como Lei Rouanet ou verbas da Prefeitura de São Paulo.

O inquérito apura o suposto uso de verbas públicas oriundas de um contrato entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), presidido por Karina Ferreira da Gama, que é também a dona da Go Up Entertainment. O ICB firmou um contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura para fornecimento de wi-fi, levantando suspeitas sobre a origem dos recursos.

Um dos pontos cruciais do laudo é a identificação do Havengate Development Fund LP, fundo sediado nos Estados Unidos, como principal investidor. Segundo a perícia, o Havengate celebrou um contrato de investimento em 24 de fevereiro de 2025 e seus aportes totalizaram US$ 13,3 milhões, valor quase idêntico ao custo total declarado da produção.

A administração do Havengate está a cargo de Paulo Calixto, advogado ligado ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho de Jair Bolsonaro, que reside nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025. Essa conexão com a família Bolsonaro, embora indireta, adiciona uma camada de questionamento sobre a suposta natureza estritamente privada dos fundos.

Apesar da tentativa de blindagem, a perícia não menciona Daniel Vorcaro nem outros eventuais financiadores. Essa omissão é politicamente grave, dado o vazamento de um áudio em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, cobra repasses de Vorcaro para financiar a produção.

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro chegou a desembolsar R$ 61 milhões para o filme. O valor declarado de US$ 13,39 milhões (cerca de R$ 75 milhões) representa aproximadamente 56% dos R$ 134 milhões que teriam sido discutidos em tratativas reveladas pelo site The Intercept Brasil, envolvendo Flávio Bolsonaro e Vorcaro.

A Polícia Federal, em paralelo, investiga se os valores repassados por Vorcaro podem ter sido usados para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Tanto Flávio quanto Eduardo negam qualquer irregularidade.

Em São Paulo, a prefeitura agiu, afastando Rodrigo Raveli Bolzan, gerente da SPTuris, empresa municipal de turismo. A Controladoria-Geral do Município abriu apuração sobre as ligações de Bolzan com empresas e entidades associadas ao caso, uma vez que ele foi sócio da Complexys Soluções Integradas, investigada no inquérito que apura o desvio de recursos públicos do Instituto Conhecer Brasil.

O advogado Ricardo Sayeg, que defende Karina Ferreira da Gama, recomendou o adiamento da estreia de ‘Dark Horse’ para depois das eleições de 2026. A medida visa evitar que a obra seja associada à disputa eleitoral e garantir que não pairem dúvidas sobre sua natureza cultural e artística. Karina, por sua vez, manifestou a ambição de concorrer ao Oscar em seis categorias, incluindo melhor filme e melhor diretor.

Apesar de Flávio Bolsonaro ter afirmado em maio que a produção do filme foi um projeto cultural privado transformado em narrativa política por conta de sua pré-candidatura, as omissões no laudo e as investigações em andamento impedem que o caso seja encerrado. O custo declarado de R$ 75 milhões do filme, embora expressivo, não responde à pergunta fundamental que interessa ao eleitorado: de onde veio a montanha de dinheiro que financiou a mais cara produção da direita brasileira, e em que condições a família Bolsonaro articulou seu financiamento.

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