Estudo expõe retrocesso dos EUA em medidas para conter tráfico de armas ao México

Armas de fogo apreendidas dispostas sobre uma mesa. (Foto: jornada.com.mx)

O governo dos Estados Unidos destaca que as apreensões de armas ilegais em seu território aumentaram 125% na segunda administração de Donald Trump, totalizando mais de 36 mil armas confiscadas, incluindo 4.359 com destino a organizações criminosas mexicanas. Contudo, um estudo da Universidade de Georgetown publicado em maio por Claire Castrejon e Abigail Tank adverte que as medidas com maior potencial para frear o tráfico de armas para o México seguem sem aplicação e inclusive algumas retrocederam nos últimos meses, segundo reportagem do jornal mexicano La Jornada.

A pesquisa, baseada em dados de rastreamento da Agência de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF) obtidos via pedido de transparência para o período 2015-2024, formula quatro recomendações centrais para os EUA. A primeira é estabelecer a verificação obrigatória de antecedentes em todas as vendas de armas, inclusive as transações entre particulares.

Hoje, a lei federal só exige essa checagem para vendedores licenciados, deixando em aberto a brecha das vendas privadas, conhecida como “brecha das feiras de armas”. Conforme a ATF, esse canal respondeu por 40,7% dos tipos de tráfico investigados entre 2017 e 2021.

A segunda recomendação é ampliar as inspeções nos pontos de saída rumo ao México. O estudo mostra que as regiões dos EUA com maior concentração de armas rastreadas se situam ao longo das principais rodovias do país, de modo que mais pessoal, tecnologia e pontos de revisão no sentido sul reduziriam a capacidade operacional das redes de contrabando.

A terceira propõe devolver ao Departamento de Estado a supervisão das exportações de armas leves, transferida ao Departamento de Comércio em 2020. Sob esse arranjo, os exportadores não são obrigados a notificar o Congresso nem a se registrar, e perdeu-se o monitoramento de uso final que o Departamento de Estado realizava. O estudo recorda que em setembro de 2025, o Departamento de Comércio reverteu a maior parte de uma regra de 2024 que endurecia esses controles, sob o argumento de gerar “centenas de milhões de dólares” em oportunidades de exportação para a indústria armamentista estadunidense.

A quarta é revogar as Emendas Tiahrt, que impedem que agências como o FBI e a ATF conservem e compartilhem de forma ampla os registros de compra e os dados de rastreamento de armas, dificultando as investigações sobre os chamados “compradores de palha” — pessoas que adquirem armas legalmente para traficantes. As autoras reconhecem a forte oposição de grupos como a Associação Nacional do Rifle (NRA), que alegam que tais reformas levariam a um registro nacional de armas, proibido por lei.

Como alternativas, sugerem que estados como Texas e Arizona — origem de 83,6% das armas recuperadas no México e rastreadas aos EUA entre 2015 e 2024 — legislem verificações de antecedentes em nível local, a exemplo do Novo México em 2019, ou que se crie um processo interagências entre o Comércio e o Departamento de Estado para fazer verificações de uso final sem impor ônus adicionais aos exportadores. A discrepância entre o discurso oficial de Washington e a realidade revelada pela pesquisa escancara a subordinação da política de segurança à lucratividade da indústria armamentista, que se beneficia de brechas legais para alimentar a violência no México e em toda a América Latina.

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