O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) adiou nesta semana uma decisão crucial que poderia desatar um nó jurídico perigoso para a liberdade de informação nas eleições de 2026, mas, ao fazê-lo, escancarou a blindagem institucional em torno de Flávio Bolsonaro (PL) e seus aliados. O adiamento do referendo da liminar do ministro do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, que censurou uma pesquisa AtlasIntel, joga luz sobre os dois principais impasses que a Corte terá de enfrentar nos próximos meses.
A pesquisa em questão havia apontado uma queda significativa nas intenções de voto do senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), após a divulgação de conversas entre ele e o banqueiro Daniel Vorcaro sobre repasses multimilionários para um filme de propaganda pró-Jair Bolsonaro, também do Partido Liberal (PL). O primeiro dilema posto à mesa do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é justamente a permissão para que institutos de pesquisa apresentem conteúdos multimídia, como áudios e vídeos, aos entrevistados de seus levantamentos.
Em meio ao debate, o ministro do Tribunal Superior Eleitoral, Dias Toffoli, alertou para a complexidade da questão. Sem antecipar seu voto, Toffoli ressaltou a necessidade de uma jurisprudência clara para o futuro. ‘A gente tem de decidir se pode ou não pode vídeo. Se pode vídeo, pode vídeo de todo tipo’, pontuou o ministro, indicando a vasta gama de cenários que se abririam para a Justiça Eleitoral.
Para o advogado Alexandre Rollo, doutor em Direito das Relações Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e especialista em Direito Eleitoral, a tendência é que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vete a inclusão de gravações nas pesquisas. Ele argumenta que permitir tal prática ‘ficará muito complicado’ e abriria caminho para ‘vídeo e áudio de deepfake, inclusive’, o que minaria a credibilidade do processo eleitoral. O histórico dos levantamentos, lembra Rollo, demonstra que nunca foi necessário o uso de arquivos multimídia para sondar as intenções de voto dos eleitores.
O segundo impasse decisivo gira em torno da liberdade de análise e comentário dos representantes dos institutos de pesquisa sobre seus próprios levantamentos. A liminar do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, que barrou a sondagem AtlasIntel, focou nas declarações do CEO Andrei Roman à CNN Brasil.
Nunes Marques criticou o fato de Roman ter reconhecido o ‘viés político do conteúdo submetido aos entrevistados’ e externado ‘juízo valorativo acerca do potencial de desgaste eleitoral do pré-candidato’ Flávio Bolsonaro. As falas do CEO da AtlasIntel, que classificou o áudio como ‘muito problemático para a imagem’ de Flávio e capaz de comprometer ‘a viabilidade dele neste ciclo eleitoral’, foram usadas como justificativa para a censura, gerando um preocupante precedente para a atuação da imprensa e dos pesquisadores.
Essa interpretação por parte do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acende um alerta vermelho para os institutos de pesquisa. A preocupação é que a simples análise dos resultados por seus executivos em entrevistas à imprensa possa ser usada como pretexto para que candidatos alegadamente prejudicados peçam a suspensão da divulgação de números, impondo uma perigosa autocensura no meio e limitando o debate público.
O desfecho deste julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), segundo Carta Capital, terá um impacto que transcende a corrida presidencial de 2026. Os Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) de todo o país seguirão a jurisprudência estabelecida, abrindo as portas para uma enxurrada de ações de candidatos a governador e a deputado estadual buscando censurar levantamentos locais e fragilizando a transparência.
Este cenário é ainda mais preocupante em um momento de vertiginosa ascensão da inteligência artificial generativa e de um volume já alarmante de ações sobre fake news e propaganda irregular. O risco é de um ambiente eleitoral profundamente tumultuado e marcado pela incerteza jurídica sobre o que pode ou não ser divulgado e analisado, com graves consequências para a legitimidade dos pleitos futuros.
A suspensão do julgamento, por um pedido de vista da ministra do Tribunal Superior Eleitoral, Estela Aranha, não resolve a questão central, mas a adia. O que a liminar do ministro Kassio Nunes Marques já deixou claro é a persistência de uma estratégia de blindagem ao clã Bolsonaro. Mais do que uma disputa jurídica sobre metodologias de pesquisa, o caso AtlasIntel representa um ataque direto à liberdade de informação, um pilar fundamental para a democracia e para a capacidade do eleitorado de formar sua opinião com base em fatos concretos.