A ideia de que Flávio Bolsonaro herdaria automaticamente o capital político do pai, Jair Bolsonaro, virou fumaça. A pesquisa MDA/CNT divulgada nesta terça-feira (16) enterrou de vez essa expectativa: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva venceria o senador do PL por 49,3% a 36,8% no segundo turno, uma diferença de 12,5 pontos percentuais.
O dado é da reportagem do Metrópoles que detalha o levantamento. Há apenas dois meses, em abril, o mesmo instituto mostrava um cenário bem mais apertado: Lula tinha 45% contra 40% de Flávio. O que parecia uma disputa viva transformou-se numa liderança cristalina do petista, com 11,2% dos eleitores já optando por branco ou nulo e só 2,7% ainda indecisos.
A ampliação da vantagem não é apenas numérica. Ela escancara o fracasso do “efeito substituição” que o bolsonarismo tentou vender desde que Jair Bolsonaro ficou inelegível. Flávio nunca conseguiu replicar a conexão do pai com nichos evangélicos e de classe média radicalizada, enquanto Lula mantém lastro firme entre os mais pobres e no Nordeste, onde a experiência concreta de renda e emprego ainda fala mais alto que a retórica de ocasião.
Para piorar, a fragilidade do senador não é exceção dentro do campo conservador. Contra outros pré-candidatos testados na mesma pesquisa, Lula também se aproxima da maioria absoluta. O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, que em 2022 somou 6.094.136 votos (56,2% no estado, mas só 5,62% nacionalmente), patina em 31,6% no segundo turno contra 48,8% do presidente. Já Ronaldo Caiado, com 1.806.892 votos em Goiás (1,67% no Brasil), amarga 32,2% diante de 48,4% de Lula. Números que expõem o tamanho real dessas lideranças regionais quando a régua é nacional.
O primeiro turno confirma a desordem. Lula lidera com 41,8%, contra 28,2% de Flávio. A soma de todos os adversários — Caiado (4%), Zema (2,8%), Joaquim Barbosa (2,3%), Michel Temer (1,9%) e os demais — mal alcança metade da votação do petista. É o retrato de um campo partido, sem palanque unificado e sem discurso capaz de atravessar os grotões onde o lulismo mantém força.
A crise interna da direita já é admitida pelos próprios protagonistas. O ex-governador Caiado, que articula chapa própria com o presidente do PSD, Gilberto Kassab, declarou sem rodeios: “Flávio perdeu a condição de vencer Lula”. A frase ecoa o desmoronamento de uma candidatura que nasceu como aposta mecânica e agora vê seu teto desabar. Kassab, inclusive, já permite que seu nome circule como vice de Caiado, sinal de que o PSD se distancia do bolsonarismo para tentar sobreviver com um projeto alternativo.
A pesquisa ouviu 2.002 brasileiros entre 10 e 14 de junho, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%, registrada no TSE sob código BR-04256/2026. O que ela revela é que a eleição ainda está longe, mas o descolamento já é real. Enquanto Lula governa e mantém sua base, Flávio patina na herança que não veio.