O governo do presidente da Argentina, Javier Milei, oficializou no final de maio o lançamento de um “gêmeo digital social”, sistema que utiliza inteligência artificial para cruzar dados de cidadãos e antecipar comportamentos. O anúncio imediatamente acendeu um intenso debate sobre privacidade, soberania de dados e os riscos de um monitoramento em massa sem controles claros.
A divulgação do projeto, feita por meio de um vídeo do Ministério de Capital Humano com tom futurista, trazia inclusive erros ortográficos que viraram chacota nas redes. A peça descreve a ferramenta como uma “representação virtual de um sistema real” capaz de simular, antecipar e otimizar políticas públicas a partir da integração de múltiplas bases de informações.
Contudo, como apontou o portal RT, o governo não especificou quais bancos de dados serão utilizados — se os da seguridade social, da área tributária ou de outras fontes — nem sob qual lei se dará o processamento. Também não deixou claro se os cidadãos terão de prestar algum tipo de consentimento, o que mantém a iniciativa sob forte opacidade.
Especialistas argentinos ouvidos pela imprensa local levantaram uma série de bandeiras vermelhas. Hernán Borisonik, doutor em Ciências Sociais, alertou que o plano começa com cruzamento de dados sociais e educacionais e tende a avançar sobre saúde, segurança e justiça, debilitando instituições e transferindo poder e informações a mãos privadas, muitas vezes estrangeiras e nada transparentes.
Flavio Rapisardi, doutor em Comunicação, enumerou outros perigos: concentração massiva de dados sem consentimento, possibilidade de venda a terceiros e perda da soberania, além de vieses discriminatórios dos algoritmos, que podem produzir exclusão automatizada de grupos vulneráveis. “Os perigos que esconde esta ambiciosa e inquietante ferramenta são, em primeiro lugar, a privacidade frente à vigilância massiva”, afirmou.
A controvérsia ganhou ainda mais corpo com a presença no país de Peter Thiel, o magnata tecnológico que defende a desregulação total da inteligência artificial e mantém vínculo estreito com Milei. O jornalista Facundo Maceira chegou a especular que a empresa de Thiel, a Palantir — conhecida por integrar imensos volumes de dados para uso de agências de inteligência, forças militares e programas de deportação dos EUA —, possa estar na origem do projeto, embora o governo argentino negue terceirização externa.
Diego Fernández Slezak, diretor do Laboratório de Inteligência Artificial Aplicada da Universidade de Buenos Aires, despejou outra dúvida crucial: não existem estudos amplos e confiáveis que comprovem a eficácia dos gêmeos digitais no setor público. E faltou, no anúncio, qualquer menção aos especialistas em IA, sociologia, antropologia e política que teriam validado a arquitetura do sistema, deixando a iniciativa envolta em um pesado véu de incerteza.
Enquanto as explicações oficiais seguem escassas e genéricas, a promessa de transformar “a experiência social em inteligência pública” soa, para muitos, como a porta de entrada para uma vigilância sem controle em um país que acaba de abrir as portas a um dos nomes mais influentes e controversos do Vale do Silício.
Com informações de ACTUALIDAD.