O presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, decidiu que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro terá papel central na escolha do candidato a vice-presidente na chapa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a corrida presidencial de 2026. A definição, revelada nesta quarta-feira pelo Diário do Centro do Mundo, descarta de forma explícita o nome de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal, que vinha sendo cotada para compor a dobradinha bolsonarista.
A exclusão de Marques, uma economista com perfil técnico e passagem pelo governo Jair Bolsonaro, sinaliza que o PL optou por blindar a chapa com um nome que responda diretamente à lavagem de imagem da família Bolsonaro. A interlocução direta com Michelle Bolsonaro, que nunca exerceu cargo público eletivo mas se consolidou como figura de proa no bolsonarismo, transforma a escolha do vice em um ato de controle patrimonial do clã sobre o partido.
Valdemar Costa Neto, que cumpre pena em regime semiaberto após condenação no mensalão, justificou a manobra nos bastidores como uma forma de ‘manter a unidade’ da legenda. Na prática, o dirigente transferiu a Michelle um veto informal sobre qualquer nome que ameace a hegemonia do núcleo familiar na campanha. A ex-primeira-dama atua como fiadora da fidelidade do eleitorado evangélico e do discurso de vitimização que sustenta a popularidade do bolsonarismo após a inelegibilidade de Jair Bolsonaro.
Daniella Marques, que presidiu a Caixa entre julho e dezembro de 2022, era vista como uma alternativa para atrair o mercado financeiro e sinalizar moderação econômica. Sua rejeição direta revela que o cálculo eleitoral do PL não passa por acenos ao capital, mas sim pela radicalização da base com uma chapa integralmente subordinada ao sobrenome Bolsonaro.
A movimentação ocorre enquanto Flávio Bolsonaro tenta se viabilizar como candidato competitivo em meio a investigações sobre transações financeiras suspeitas. O senador é alvo de apurações que envolvem o chamado ‘rachadinha’ e operações com imóveis, além de ter sido citado em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) com movimentações atípicas. O controle de Michelle sobre a definição do vice pode ser lido como uma tentativa de ancorar a chapa em alguém com lealdade absoluta, minimizando riscos de delação ou descolamento de narrativa.
A escolha do vice também tem impacto direto sobre a governabilidade de um eventual governo Flávio Bolsonaro. Se o nome escolhido for alguém sem densidade política própria, o Planalto ficará completamente refém do núcleo familiar e de seus operadores. Se for alguém com musculatura partidária, pode criar um polo de tensão logo no início do mandato. Michelle Bolsonaro, portanto, não decide apenas um nome: decide a arquitetura do poder bolsonarista em 2027.
A Conexão 2026 com essa costura fica evidente quando se observa o calendário partidário. O PL corre contra o relógio para registrar a chapa até a convenção e precisa exibir coesão após a derrota no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que tornou Bolsonaro inelegível. A participação de Michelle na escolha do vice é um movimento para mostrar que o ‘mito’ segue no comando, ainda que nos bastidores, e que a candidatura de Flávio é uma extensão direta do projeto de poder do pai.
A decisão de Valdemar Costa Neto também afasta o risco de um desembarque do mercado na candidatura bolsonarista. A rejeição a Daniella Marques mostra que o PL não está disposto a ceder espaço para um discurso de responsabilidade fiscal que poderia desidratar o apelo populista da campanha. O recado é claro: a chapa será bolsonarista raiz, sem contaminações externas, ainda que isso custe apoios no andar de cima.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa de um vice que não ofusque suas fragilidades. O senador carrega rejeição alta, falta de traquejo em debates e a sombra constante das investigações do Ministério Público. Um vice forte poderia se tornar um problema, como aconteceu com Michel Temer no passado. Michelle Bolsonaro, como guardiã da ortodoxia bolsonarista, deve optar por um nome subserviente, preferencialmente com apelo entre evangélicos e sem ambições próprias.
A blindagem eleitoral de 2026 passa, portanto, por uma costura que une o jurídico, o midiático e o eleitoral. A família Bolsonaro trata a indicação do vice como uma extensão de sua própria defesa política, descartando nomes técnicos e apostando em perfis que não criem fissuras no discurso de perseguição. O PL, sob comando de Valdemar, aceita o papel de coadjuvante em uma chapa que tem dono e dona.