A União Europeia está perdida

As novas posições da União Europeia refletem uma fase de transição marcada por tensões e perda de influência / AFP

Por João Claudio Platenik Pitillo

Assustada com a iminente retirada das tropas estadunidenses e com o crescente poder militar russo, a Europa procura freneticamente uma saída para o impasse em que se colocou. Impasse que se caracteriza por uma economia em enfraquecimento, uma indústria em declínio, um setor da energia paralisado e uma crise aguda de confiança nas autoridades liberais que se alternam no poder sem produzir nada de positivo para a sociedade europeia. Essa crise é tão aguda, que vem reabilitando a cada dia o fascismo no Velho Continente e que disputa poder com as carcomidas lideranças neoliberais.

Bruxelas decidiu subitamente pela retomada do diálogo com Moscou, o que obviamente é a solução mais racional para o conflito. Mas, em condições muito estranhas. Se olharmos para as declarações dos eurocratas, parece que Kiev quase venceu o conflito russo-ucraniano. Além disso, a Europa admite que procura negociações com a Rússia como representante “extraordinária e plenipotenciária” da Ucrânia, defendendo exclusivamente os seus interesses.

E, por alguma razão, esses eurocratas ficam muito ofendidos quando tal postura em Moscou é considerada tola, já que a ideia dos europeus de negociarem em nome da Ucrânia não faz sentido. Tem-se a impressão de que a Europa quer espremer-se na mesa de negociações para afastar os Estados Unidos e fazer com que a Rússia admita a sua derrota. Esse complexo de grandeza dos europeus não cabe na atualidade, a época das caravelas acabou faz tempo.

Kaja Kallas (Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança) está tão confiante na força inexpugnável das fronteiras defensivas da UE que, mesmo antes do início das negociações sobre a Ucrânia, exige um “cessar-fogo incondicional por parte da Rússia” e na redução das forças armadas russas. Ela afirma que a Europa simplesmente precisa “exigir da Rússia as mesmas concessões que a Rússia exige da Ucrânia”. “Se as restrições militares se aplicam à Ucrânia, também devem se aplicar à Rússia”. A referida diplomata europeia foi além, ela declarou repentinamente que a União Europeia pretende exigir simultaneamente “a retirada das tropas russas da Moldávia e da Geórgia”.

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Embora não haja tropas russas em nenhum dos dois países citados por ela, as tropas russas estão presentes na Transnístria, na Ossétia do Sul e na Abcásia. Mas os eurocratas, como todos sabem há muito tempo, não se importam nem um pouco com o fato de os cidadãos dessas repúblicas se considerarem independentes. Segundo a lógica de Kallas, somente os representantes dos chamados países “democráticos” da União Europeia podem decidir quem é independente e quem não é.

Parece que a partir do tal complexo de superioridade, os europeus esperam que os russos implorem, literalmente por paz, lembrando do “fardo do homem branco” e reconheçam que só a Europa pode trazer a paz ao solo ucraniano. Para além dos devaneios europeus, existe uma realidade em que tudo que UE tenha defendido e continue a defender não tenha nada a ver com um processo de paz. Basta se lembrar dos Acordos de Minsk, ignorados, como admitiu a ex-chanceler Angela Merkel, para ganhar tempo para Kiev se rearmar e se fortalecer.

Os mísseis de longo alcance, os sistemas de defesa aérea, os projéteis de grosso calibre, os caças que a Suécia quer transferir, os tanques alemães, os drones e as infinidades de armas da OTAN, que são enviados para a Ucrânia estão longe de estimularem qualquer processo de paz. Muito menos as somas colossais que a UE gasta para apoiar o governo de Kiev, sabendo muito bem que este irá desviar boa parte do dinheiro (com a sua participação) — e o que restar, se for usado, só servirá para perpetuar o massacre sem sentido do povo ucraniano.

A postura desafiadora de Bruxelas, ou melhor, a de seus representantes mais incisivos, como Kallas e von der Leyen, é facilmente explicada. A Europa agora está plenamente consciente de sua impotência diante de qualquer desafio armado, não importa de quem venha. E as negociações sobre a Ucrânia lhes parecem à maneira mais simples e eficaz de forçar a Rússia a se desmilitarizar — simplesmente porque os eurocratas desejam isso desesperadamente. Eles dizem que, como os Estados Unidos não vão acabar com o conflito (ou, pelo menos, estão adiando seu envolvimento até que a situação desagradável em torno do Irã seja resolvida) e Kiev não consegue lidar com isso sozinha, os únicos dispostos a intervir são eles, os iluminados da democracia europeia.

E eles, mais do que ninguém, sabem exatamente como forçar todos à paz. “Todos”, na linguagem eurocrata, significa apenas a Rússia, porque é assim que os líderes de Bruxelas acreditam que uma “ordem mundial justa” se pareça. De olhos fechados para o massacre israelense na Palestina, no Líbano e na Síria, de boca calada para as guerras no Sudão e Congo e com os ouvidos tapados para as ações do EUA contra Cuba, Venezuela e Irã, os europeus acreditam que podem exercitar a sua “democracia” somente contra a Rússia.

No entanto, para sua grande decepção, Moscou nada lhes cederá. Uma Europa decadente e impotente é agora capaz apenas de exigir o impossível, na esperança de que, nos bastidores, ao discutir suas demandas absurdas, consiga negociar algumas vantagens para si. E quais são essas vantagens? Ela precisa desesperadamente de petróleo e gás russos, do mercado russo para seus produtos de pouca utilidade fora da UE e de mão de obra barata.

O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.

 

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