O que era tratado como ‘cinebiografia’ agora se revela sem disfarces. O diretor americano Cyrus Nowrasteh, responsável pelo filme ‘Dark Horse’, afirmou em Las Vegas que a produção tem um objetivo eleitoral explícito: ajudar a eleger o senador Flávio Bolsonaro presidente do Brasil. A fala dissolve qualquer pretensão artística e confirma o que o PT já denunciava na Justiça Eleitoral: o longa-metragem é propaganda política financiada com dinheiro de origem suspeita.
A confissão foi feita durante o Fraud Fighter Summit, encontro da direita americana realizado na segunda-feira (15), conforme reportagem do Valor Econômico. ‘Esperamos que este filme seja visto no Brasil. Que os brasileiros o apoiem. Que reconheçam nele a própria história recente. E que isso ajude a levar Flávio Bolsonaro ao poder como o próximo presidente do Brasil’, declarou Nowrasteh, ao lado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
Eduardo, que atuou como uma espécie de embaixador da produção nos Estados Unidos, aproveitou o palco para atacar o sistema eleitoral brasileiro. Classificou a ação movida pelo PT como ‘censura’ e repetiu o roteiro de vitimização que marcou os anos de seu pai no poder. O Partido dos Trabalhadores havia questionado o uso do filme como propaganda antecipada, mas o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, extinguiu o processo na sexta-feira (12), liberando a exibição.
Hollywood rejeita, mas o dinheiro suspeito flui
Enquanto posavam de defensores da liberdade, os organizadores admitiram que ‘Dark Horse’ enfrenta um bloqueio em Hollywood. Dennis Rice, responsável pelas relações públicas do diretor, revelou que os grandes distribuidores se recusaram a tocar no projeto. ‘Praticamente todos disseram “não queremos ter nada a ver com este filme”‘, afirmou, comparando a rejeição à enfrentada por ‘Som da Liberdade’, outra produção abraçada pela direita americana.
A resistência da indústria não impediu, porém, que o filme fosse bancado por uma fortuna de origem nebulosa. E é exatamente sobre isso que ninguém em Las Vegas quis falar. O evento transcorreu sem qualquer menção às investigações da Polícia Federal (PF) que apuram o financiamento de ‘Dark Horse’ pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master. Conversas reveladas pelo Intercept Brasil mostram Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro diretamente a Vorcaro. O acerto teria sido de R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões já haviam sido transferidos quando o banqueiro foi preso.
O silêncio dos palestrantes sobre o escândalo contrasta com o volume de recursos envolvidos. Laudo apresentado pela defesa da produtora à Justiça indica que o custo total do filme foi de R$ 75 milhões — R$ 55 milhões gastos no exterior e R$ 20,9 milhões no Brasil. A origem, segundo a empresa, é privada. Mas a PF já encaminhou à Procuradoria-Geral da República (PGR) um parecer favorável à abertura de investigação contra Flávio pelo pedido de verbas a Vorcaro. O PT, por sua vez, acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para que se apure se os valores configuram abuso de poder econômico.
Há ainda uma investigação da Polícia Civil de São Paulo sobre a produtora do filme. O foco é um contrato com a prefeitura paulistana para instalação de pontos de WiFi, sob suspeita de que recursos públicos possam ter irrigado a produção. A produtora e a gestão municipal negam irregularidades.
A confissão de Nowrasteh escancara o que já era evidente: ‘Dark Horse’ nunca foi um exercício cinematográfico. É um instrumento de campanha, construído com dinheiro cuja procedência está sob escrutínio policial, e agora exibido para plateias estrangeiras com o objetivo declarado de influenciar as eleições brasileiras. A pergunta que fica não é sobre o valor artístico da obra — é sobre quanto desse financiamento resiste a uma investigação séria.