O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, pediu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que atue como interlocutor direto com o líder russo, Vladimir Putin, para reativar as conversas que possam pôr fim ao conflito que já se arrasta por quase quatro anos e meio. O pedido foi feito durante encontro bilateral realizado na última quarta-feira, 17 de junho, às margens da Cúpula de Líderes do G7, em Évian-les-Bains, na França.
Segundo apurou o portal Metrópoles com interlocutores do Palácio do Planalto, Zelensky solicitou expressamente que Lula entre em contato com Putin e peça que o governo russo volte a se engajar seriamente nas negociações. O gesto repete uma solicitação semelhante feita pelo governo ucraniano em maio do ano passado, quando Kiev já havia pedido a mediação brasileira para tentar trazer Moscou à mesa de diálogo.
Na avaliação do Planalto, Lula é visto como um dos poucos canais viáveis de diálogo com Putin, uma vez que a Ucrânia e a maioria dos países europeus romperam relações diplomáticas formais com a Rússia. O presidente brasileiro mantém interlocução regular com Moscou, seja por meio dos BRICS — bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul —, seja por telefonemas e reuniões bilaterais que já ocorreram ao longo do atual mandato.
Após a conversa em território francês, Lula declarou ter tido a melhor conversa com Zelensky desde o início do conflito. Foi a primeira vez, segundo o petista, que sentiu o presidente ucraniano realmente disposto a buscar um cessar-fogo efetivo e a construir as condições para o encerramento das hostilidades com a Rússia.
Lula afirmou ainda que todo mundo está cansado da guerra, inclusive aqueles que a financiam, em uma referência indireta ao papel das potências ocidentais no prolongamento do conflito. A declaração ecoa a posição histórica do governo brasileiro, que desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022, defende uma saída negociada e rejeita a lógica de escalada armada que predomina na postura da OTAN.
Do lado ucraniano, Zelensky revelou que ficou combinado com Lula que, a partir de agora, os dois líderes manterão contatos frequentes. A declaração sinaliza uma possível virada no relacionamento entre Brasília e Kiev, que passou por momentos de forte tensão nos últimos anos.
As rusgas entre os dois presidentes ficaram evidentes quando Lula insinuou que Zelensky teria tanta responsabilidade pelo conflito quanto Putin, declaração que gerou mal-estar diplomático. Em outro episódio, ao comentar as tentativas brasileiras de mediação, Zelensky chegou a afirmar que o trem do Brasil já tinha passado, em tom de desdém que agora parece superado.
A iniciativa ganha novo fôlego em um momento em que o cansaço com a guerra se aprofunda na própria Europa. Quando assumiu o terceiro mandato, Lula chegou a propor a formação de um Grupo da Paz com outros países do Sul Global, mas a iniciativa esbarrou na desconfiança gerada pela proximidade brasileira com Moscou e pelo alinhamento automático de potências ocidentais à estratégia de isolamento da Rússia.
Agora, com o conflito entrando em seu quinto ano e sem solução militar à vista, o pedido explícito de Zelensky recoloca o Brasil como potencial articulador de uma saída diplomática. Resta saber se Moscou responderá positivamente à investida brasileira e se as condições para um cessar-fogo estão de fato maduras.
Com informações de Metrópoles.