Flávio Bolsonaro associa PT a facções criminosas em vídeo feito com IA; federação aciona o TSE

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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) usou um vídeo gerado por inteligência artificial para colocar o PT na mesma mira do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV). A pré-campanha do parlamentar, que disputa a Presidência, produziu uma peça em que ele e seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, aparecem como militares atirando contra embarcações com as siglas das duas facções — e uma terceira, com o logotipo do partido do presidente Lula, foge ao ser enquadrada.

A Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) entrou com representação no Tribunal Superior Eleitoral na última quinta-feira, pedindo a remoção do conteúdo, a suspensão do impulsionamento e a aplicação de multa por propaganda eleitoral antecipada e uso irregular de inteligência artificial. A peça foi publicada nas redes do senador na quarta-feira, 17 de junho.

A ação não se restringe à forma. O coração da irregularidade está no conteúdo: a sigla do PT é posta lado a lado com organizações criminosas como alvo legítimo de tiros. “A terceira embarcação, com a inscrição ‘PT’, foge ao entrar na mira da metralhadora empunhada pelo personagem de Flávio”, diz o texto protocolado no TSE. É uma tentativa de associar o partido que governa o país ao narcotráfico e à violência, usando a gramática do videogame para naturalizar uma acusação que, no mundo real, exigiria provas.

A equipe de Flávio Bolsonaro reagiu dizendo que o PT tenta “censurar” o vídeo e alegou que a publicação contém um aviso “transparente” informando o uso de inteligência artificial. Mas a regra eleitoral não é apenas sobre transparência. O tribunal estabeleceu em março que o uso de IA na propaganda é permitido, desde que a ferramenta seja declarada — mas isso não autoriza ninguém a associar um partido político a facções criminosas nem a produzir conteúdo que incite violência ou desinforme o eleitor.

Conforme reportagem do G1, as novas regras eleitorais proíbem a circulação de peças geradas por IA nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores à votação, vedam que plataformas como ChatGPT recomendem candidatos e exigem que todo material sintético traga “aviso explícito, em local destacado e de fácil visualização”. Nada disso, porém, dá carta branca para difamar adversários com montagens bélicas.

O gesto de Flávio Bolsonaro diz muito sobre o tipo de campanha que o bolsonarismo pretende travar em 2026. Incapaz de debater propostas ou defender o legado de quatro anos de governo de seu pai — que deixou o país com inflação de dois dígitos, 33 milhões de famintos e uma tentativa de golpe —, o senador aposta na demonização do campo adversário pela tela do celular. O vídeo com IA é o atalho: substitui argumento por impacto visual, informação por medo, política por espetáculo.

O TSE agora analisará se o conteúdo configura propaganda antecipada — afinal, o vídeo não apenas ataca o PT, mas constrói a imagem de Flávio como herói militar, o que antecipa o palanque eleitoral. E avaliará também se a associação entre um partido político e facções criminosas, mesmo travestida de filme de ação, viola as normas que buscam preservar um mínimo de civilidade no debate público. A resposta do tribunal será um termômetro para os meses que virão: se o limite é o que Flávio fez, a campanha presidencial será um território sem lei.

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