O sistema financeiro brasileiro alcançou em 2025 o maior lucro de sua história: R$ 255 bilhões. O montante, que representa um salto significativo sobre os R$ 145 bilhões registrados em 2024, foi impulsionado diretamente por uma taxa Selic que o Banco Central manteve em 15% ao ano — a mais elevada em quase duas décadas e uma das maiores do planeta quando descontada a inflação. O levantamento do G1 com base nos balanços dos cinco maiores bancos do país — Itaú, Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Caixa Econômica Federal — expõe a engrenagem que transfere riqueza da economia real para o patrimônio de acionistas.
O recorde bilionário é fruto de um mecanismo que se retroalimenta. A Selic, fixada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) com o aval da autonomia operacional do BC, serve de piso para os juros cobrados nos empréstimos bancários. Nas linhas de crédito não direcionado — aquelas sem taxas favorecidas — os bancos praticam spreads que multiplicam o custo do dinheiro para empresas e famílias. Com a taxa básica a 15%, o crédito rotativo do cartão, o cheque especial e o capital de giro tornaram-se instrumentos de confisco silencioso da renda nacional.
A autonomia formal do Banco Central, conquistada durante o governo anterior sob o pretexto de blindagem técnica, revela-se agora como o pilar institucional que garante previsibilidade ao rentismo. Enquanto o discurso oficial insiste no mantra do combate à inflação, a realidade dos demonstrativos contábeis conta outra história: o custo da dívida pública explodiu, o Tesouro Nacional sangrou com encargos que superaram R$ 800 bilhões no ano, e o setor produtivo viu o investimento produtivo encolher diante da alternativa muito mais rentável de aplicar em títulos soberanos.
É uma década de consolidação dessa transferência. Desde 2016, ano do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, o país assistiu a uma escalada consistente dos ganhos financeiros em proporção ao PIB. Cada ponto percentual da Selic mantido acima do necessário para convergência inflacionária representa, na prática, uma renúncia fiscal invertida: o Estado renuncia ao crescimento e repassa, via dívida pública, recursos que engordam o balanço das instituições financeiras.
Os números de 2025 revelam que o Itaú Unibanco liderou o ranking com folga, aproximando-se da marca de R$ 100 bilhões em lucro líquido. O Banco do Brasil, mesmo com a dupla função de banco comercial e agente de políticas públicas, também registrou alta expressiva, beneficiando-se da carteira de crédito atrelada ao agronegócio — setor que, apesar de isenções fiscais e taxas subsidiadas, remunera acionistas com dividendos generosos.
O Bradesco e o Santander, que em anos anteriores amargaram provisões mais pesadas com inadimplência, reverteram o cenário. A explicação é cíclica, mas também política: a renegociação de dívidas de grandes empresas e o alongamento de perfis de crédito foram acompanhados por um encolhimento da oferta para pequenas e médias empresas, justamente as que geram emprego. O resultado é lucro recorde para os bancos e desassistência para quem produz.
A Caixa Econômica Federal, por sua vez, ilustra a contradição do modelo. Banco estatal responsável pelo financiamento habitacional e pelo FGTS, a Caixa viu seu lucro subir, mas sua carteira de crédito imobiliário encolher em termos reais. O dinheiro que deveria irrigar a construção civil e gerar empregos de qualidade foi, em parte, drenado por aplicações em títulos públicos de curtíssimo prazo — operação perfeitamente legal, mas que desvirtua a função social de um banco público.
O ano de 2025 expôs também a hipocrisia do discurso liberal sobre eficiência. Enquanto os bancos celebram ganhos extraordinários, a indústria de transformação brasileira perdeu participação no PIB, recuando ao nível mais baixo desde os anos 1940. A cada R$ 100 gerados pela economia brasileira, mais de R$ 20 foram parar no setor financeiro — uma proporção típica de economias periféricas e dependentes, onde o rentismo captura o excedente antes que ele se converta em salário, inovação ou infraestrutura.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta o dilema com as mãos parcialmente amarradas. A autonomia do BC, herdada da gestão anterior e mantida por força de lei, impede que o Palácio do Planalto interfira diretamente na taxa de juros. O presidente já criticou publicamente o patamar da Selic em diversas ocasiões, classificando-o como injustificável e lesivo ao país, mas a caneta que define os juros segue nas mãos do Copom.
Especialistas críticos ao modelo apontam que a solução passa por um novo arranjo institucional. Além de revisar a autonomia — que na prática funciona como um mandato para favorecer o capital financeiro —, seria preciso ampliar o crédito direcionado, usar os bancos públicos como indutores de concorrência e tributar lucros extraordinários. A taxação de dividendos, até agora bloqueada no Congresso Nacional, aparece como instrumento central para reequilibrar minimamente a balança.
Enquanto o debate legislativo não avança, os R$ 255 bilhões de 2025 entram para a história como o símbolo mais bem-acabado de uma economia que premia quem empresta, pune quem produz e concentra renda em velocidade recorde. O Brasil acumula, ano após ano, as marcas de um projeto de poder que soube blindar o sistema financeiro das urgências do desenvolvimento nacional.


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