Mearsheimer endossa Vance: ‘Israel precisa acordar’ e cair na real do acordo Trump-Irã

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O cientista político John Mearsheimer, da Universidade de Chicago, endossou no canal Judging Freedom — apresentado pelo juiz Andrew Napolitano — uma das declarações mais duras já feitas por um alto integrante do governo norte-americano contra o atual gabinete de Benjamin Netanyahu. O alvo da fala é a postura de setores do governo israelense que vêm hostilizando publicamente Donald Trump e o acordo que sua administração tenta costurar com o Irã.

O ponto de partida da análise é uma fala recente do vice-presidente JD Vance em entrevista coletiva. Vance afirmou estar incomodado ao ver figuras do gabinete de Netanyahu saírem em campo para atacar pessoalmente o presidente dos Estados Unidos e desqualificar o desenho de acordo com Teerã. Para o vice-presidente, esse comportamento é míope e ingrato diante da posição real em que Israel se encontra.

Vance enumerou dois argumentos centrais. Primeiro: Trump é hoje o único chefe de Estado no mundo abertamente simpático a Israel — e governa a superpotência global. Segundo: nos últimos três meses, dois terços das armas defensivas que protegem o território israelense foram fabricadas por mãos americanas e pagas com dólares do contribuinte norte-americano. A conclusão do vice é direta: o problema de Israel não é Donald Trump, e quem em Israel acredita que é precisa acordar e enxergar a realidade do país.

Mearsheimer, um dos teóricos mais conhecidos da escola realista das relações internacionais e autor de obras como The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy, sublinhou que a fala de Vance — apesar de duríssima no tom — não é antissemita nem anti-Israel. Ao contrário: é um aviso franco de um aliado que enxerga melhor do que o próprio governo israelense em que beco sem saída Tel Aviv se meteu ao apostar todas as fichas no confronto permanente com o Irã.

O cientista político antecipa que a tentativa imediata será deslegitimar tanto o vice-presidente quanto Trump como “inimigos de Israel”. Para Mearsheimer, esse manual já é conhecido e historicamente eficaz dentro do debate público americano, onde críticos da política externa israelense são rapidamente rotulados. Mas a leitura realista é outra: Vance está apenas dizendo “os fatos da vida” para um aliado que parou de saber distinguir interesse estratégico de paranoia.

O fundo da análise é que tanto Israel quanto os próprios Estados Unidos construíram a bagunça regional em que estão metidos — desde a campanha de máxima pressão contra Teerã até a guerra de desgaste com o Hezbollah no Líbano e os bombardeios sucessivos que levaram à crise do Estreito de Ormuz. Para Mearsheimer, a única forma honesta de sair desse atoleiro é exatamente o acordo com o Irã que a administração Trump tenta destravar — mesmo enfrentando a hostilidade aberta de aliados que deveriam ser os mais interessados em ver a poeira baixar.

A leitura do canal de Napolitano se soma a uma série crescente de vozes de analistas norte-americanos — entre eles Jeffrey Sachs, Scott Ritter, Larry Wilkerson e Ray McGovern — que vêm convergindo, de ângulos distintos, para o mesmo diagnóstico: o realinhamento que Trump tenta forçar no Oriente Médio é incômodo para o establishment de Washington e para Netanyahu, mas é a única costura possível para evitar que a guerra com o Irã transborde para uma escala que nenhuma das partes consegue mais controlar.

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