O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, tratam o estado como uma peça decisiva na eleição presidencial deste ano. A movimentação ocorre em paralelo à ofensiva do senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, que tenta nacionalizar a disputa local e transformar o interior fluminense em uma trincheira contra o governo federal.
Segundo o blog da Andréia Sadi no G1, PT e PL veem o Rio como território estratégico para a disputa presidencial. Petistas avaliam que o desgaste de ex-governadores ligados à direita abre espaço para um desempenho melhor de Lula, enquanto o PL aposta em colar Paes ao petismo para mobilizar o eleitorado conservador fora da capital.
A diferença entre as duas operações é menos cerimonial do que parece. Lula e Paes tentam converter presença administrativa em palanque democrático, com obras, investimentos e capacidade de gestão em áreas onde o abandono costuma alimentar o ressentimento político. Flávio, por sua vez, aposta em transformar a eleição fluminense em plebiscito ideológico, mirando sobretudo cidades do interior e da Baixada.
Esse tabuleiro ajuda a explicar a importância dos investimentos federais anunciados no Rio. O Novo PAC inclui obras no Jardim Maravilha, em Guaratiba, na Zona Oeste, com dique de proteção contra enchentes, reservatórios e drenagem para beneficiar cerca de 30 mil moradores, além de mais de R$ 700 milhões para urbanização em comunidades como Maré, Complexo do Alemão e Rocinha, conforme anúncios do governo federal. Não é apenas agenda de obra. É a tentativa de levar Estado concreto a territórios onde o bolsonarismo prospera quando só resta medo, precariedade e promessa de ordem.
O ponto vulnerável da estratégia bolsonarista é que Flávio Bolsonaro carrega no Rio uma biografia política mais local e mais exposta do que a de Jair Bolsonaro, ex-presidente da República. O senador foi deputado estadual na Alerj e ficou associado ao caso da chamada ‘rachadinha’, investigação do Ministério Público do Rio sobre peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa, com suspeita de desvio de mais de R$ 2,3 milhões de salários de assessores entre 2007 e 2018 e participação de Fabrício Queiroz como operador financeiro. Reportagem do The Intercept Brasil também apontou que parte dos recursos desviados teria financiado prédios ilegais ligados a milícias na Zona Oeste.
Esse passivo não é detalhe de arquivo morto. Durante seu mandato na Alerj, Flávio empregou em seu gabinete a mãe e a esposa de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado como chefe do Escritório do Crime, e homenageou Nóbrega com a Medalha Tiradentes em 2005. A tentativa de posar como reorganizador conservador do Rio esbarra, portanto, em uma memória política incômoda para quem conhece a engrenagem real do poder fluminense.