“Muito esquisito.” Foi assim que a ex-governadora do Ceará Izolda Cela definiu as novas alianças de Ciro Gomes com bolsonaristas na tentativa do ex-ministro de voltar ao governo do estado, agora pelo PSDB. Para Izolda, a coerência de Ciro “foi para o espaço”.
A ex-governadora se referia ao palanque que Ciro vem construindo com o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, indicado como vice, o pré-candidato ao Senado Capitão Wagner e o PL cearense, comandado pelo deputado federal André Fernandes. É a reorganização da oposição que o ex-ministro tenta montar contra o governo Elmano de Freitas.
A declaração foi feita ao podcast As Cunhãs, comandado pelas jornalistas Camila Fernandes, Inês Aparecida e Hébely Rebouças, um dos melhores espaços de análise política do Ceará. Na entrevista, Izolda falou sobre 2022, sobre o rompimento entre Ciro e o senador Cid Gomes, e sobre a decisão do PDT de barrar sua candidatura à reeleição.
As entrevistadoras reconstruíram uma das crises mais profundas da política cearense recente. Em 2022, Camilo Santana deixou o governo para disputar o Senado, Izolda assumiu o Palácio da Abolição e passou a ser vista como o nome natural para manter unido o campo governista.
Mas a solução mais lógica foi atropelada. Em julho daquele ano, o PDT escolheu Roberto Cláudio por 55 votos a 29 no diretório estadual, abrindo uma fratura que rompeu a aliança com o PT e separou politicamente os irmãos Ciro e Cid Gomes.
Na entrevista, Izolda confirmou que sua candidatura não surgiu de improviso. “Na verdade, eu fui indicada para ser a candidata ao governo. Isso antes do Camilo sair”, afirmou.
Segundo ela, havia um entendimento entre as principais lideranças do projeto, especialmente Cid, Camilo e Ciro. “Isso chegou a ser combinado entre eles”, disse a ex-governadora.
Izolda contou que Ciro já demonstrava preferência por Roberto Cláudio, mas teria aceitado o encaminhamento pelo nome dela em uma rodada anterior. Cid, naquele momento, sugeriu que Camilo anunciasse logo a candidatura de Izolda antes de deixar o governo.
A reação atribuída a Ciro é uma das frases centrais da entrevista. Ele teria perguntado “para que isso?”, argumentando que Izolda assumiria o governo sob pressão excessiva caso já fosse apresentada como candidata.
Izolda lembra ainda outra frase daquele momento: “Vocês não confiam, não?” Na versão dela, o acordo ficou acertado ali, mas a rodada seguinte mudou tudo.
“Logo na sequência, na última rodada de conversa, aí já estressou”, relatou. Foi quando, segundo a ex-governadora, apareceram os sinais claros de rompimento: “realmente não aceitar o meu nome” e “colocar o nome do Roberto Cláudio”.
Mesmo ao narrar a própria exclusão, Izolda evita atacar Cid Gomes. Ela disse compreender o recolhimento do senador naquele momento, porque o rompimento com Ciro teve peso político, familiar e afetivo.
“Eu entendi perfeitamente aquele momento do Cid”, afirmou. Para Izolda, ele atravessava “um dos momentos mais difíceis” da vida, ao romper politicamente com um irmão que sempre fora referência.
“O líder tem coração”, disse. “O líder tem que elaborar seus lutos, suas perdas.”
A ex-governadora contou que, quando Cid voltou a conversar, deu a ela a mesma versão que Camilo já havia apresentado. Para Izolda, isso confirmou que o acordo pela sua candidatura existia e fora, na prática, desfeito.
Questionada sobre a tese de que Ciro não confiava nela para sustentar seu palanque presidencial no Ceará, Izolda reagiu com surpresa. “Muito me admira isso”, afirmou.
Ela lembrou que sua formação política e administrativa veio de Sobral, sob liderança de Cid Gomes, e que sua ida para a chapa de Camilo em 2014 também nasceu desse campo. Também afirmou que a questão do palanque de Ciro estava assegurada: “Na eleição passada, eu votei no Ciro”.
A contradição fica mais nítida em outra fala que ela atribui ao próprio Ciro. Em entrevista, ele teria dito que, se tivesse que tirar uma carta do bolso para escolher um candidato, ninguém seria melhor do que Izolda. “Como assim?”, reagiu a ex-governadora, sem esconder a estranheza diante do cinismo de quem ajudou a barrá-la.
Izolda não quis gastar energia com especulações sobre todos os motivos da manobra, mas deixou um diagnóstico duro. “O que eu vi foi uma obstinação ali para que o nome fosse o do Roberto”, afirmou.
Ao tratar da dimensão de gênero, a ex-governadora foi cuidadosa, mas firme. Ela disse que prefere não se colocar no lugar de vítima, mas reconheceu que o fato de ser mulher facilitou sua exclusão da disputa.
“O fato de eu ser mulher favorece isso? Facilita? Com certeza”, afirmou. Na leitura que emerge da entrevista, a crise expôs uma estrutura política que ainda lida melhor com homens batendo mesa do que com mulheres discretas, técnicas e leais ao próprio projeto.
A disputa interna também foi marcada pelo uso político de pesquisas. Izolda disse que seu nome ainda era pouco conhecido pelo conjunto do eleitorado, mas que os números melhoravam à medida que ela se tornava mais conhecida.
“À medida que o meu nome saía um pouco mais da bolha, a aprovação e a manifestação favorável aumentavam”, afirmou. Ela citou movimentos estranhos, como a antecipação repentina de uma pesquisa prevista para dias depois, numa tentativa de legitimar uma decisão que já parecia tomada.
Na entrevista, Izolda também respondeu às críticas que Ciro fez ao seu governo. Segundo ela, o ex-ministro chegou a dizer que ela “não mexeu em nada” e “não fez nada”, numa tentativa de desqualificar sua passagem pelo Palácio da Abolição.
A explicação de Izolda é objetiva. Ela assumiu no último ano de uma gestão de oito anos, em pleno período eleitoral, com restrições legais de publicidade, inaugurações e movimentações administrativas. Além disso, lembrou que os estados enfrentaram forte pressão orçamentária causada pelas medidas do governo Bolsonaro sobre ICMS, combustíveis e energia.
“Longe de eu querer fazer algum tipo de pirotecnia para aparecer minha marca”, disse. “Eu queria fazer o serviço.”
O resultado político da escolha de Roberto Cláudio foi desastroso para Ciro e para o PDT. Elmano de Freitas venceu no primeiro turno, enquanto Roberto Cláudio terminou em terceiro lugar, inclusive em Fortaleza, cidade que havia governado por dois mandatos.
O trecho mais duro da entrevista, porém, mira o Ciro atual. Izolda disse lamentar a escolha do ex-ministro de construir uma aliança com figuras ligadas ao bolsonarismo.
“É muito pesado. É muito esquisito mesmo”, afirmou. “Você busca algum tipo de coerência, foi para o espaço.”
A crítica recai especialmente sobre Capitão Wagner. Izolda lembrou os motins de parte da Polícia Militar no Ceará e o episódio em que Cid Gomes foi baleado em Sobral, caso que marcou a política cearense.
Ela foi enfática ao classificar aquela crise. Tirando a Covid, disse que, em termos de crises de gestão, aquela foi “de longe” a mais dura.
Para Izolda, a aliança de Ciro não é um apoio lateral ou circunstancial. “Não é alguém que está no campo de apoio, não. É a construção do palanque”, afirmou.
Esse palanque inclui hoje o PL, o deputado federal André Fernandes e o deputado estadual Alcides Fernandes, pai de André, indicado pelo partido como pré-candidato ao Senado. Alcides é um nome do bolsonarismo cearense, de perfil conservador, e aparece como uma das apostas da frente que Ciro tenta montar contra o governo Elmano.
Na direção oposta, Izolda declarou simpatia pela defesa do nome de Cid Gomes para o Senado. Ela disse não saber qual será a decisão final dele, mas afirmou acompanhar “aqueles que defendem” sua presença na chapa majoritária.
Para Izolda, a eleição de Cid teria importância não apenas para a composição local, mas para a representação do Ceará no Senado. “Nós precisamos de gente boa nesses espaços”, disse. “Confiável, confiável.”
O comentário ganha peso porque o Senado eleito em 2026 terá papel central na República brasileira. Será uma Casa decisiva para a relação com o Judiciário, para a agenda social e para a resistência institucional diante da reorganização da extrema direita.
Izolda também falou sobre Luísa Cela, sua filha, ex-secretária da Cultura do Ceará e pré-candidata a deputada federal pelo PT. Ela disse que não pretende ficar “assistindo de camarote” e que vai participar da campanha para defender o projeto político que considera importante.
“A gente tem lutado muito para livrar o Ceará dessa presença bolsonarista”, afirmou. Sobre Luísa, disse falar como mãe, mas “com bastante conhecimento de causa”.
“Sou admiradora da Luísa”, declarou. Para Izolda, a filha é “forte, decidida, dedicada” e tem “coração e mente” voltados para a defesa de causas públicas.
“É uma representatividade feminina e confiável”, afirmou. A fala recoloca Izolda no centro da memória política do Ceará sem que ela precise gritar, teatralizar ou se colocar como vítima.
O pano de fundo agora é uma eleição estadual cada vez mais apertada. Pesquisa AtlasIntel/Focus divulgada em 15 de junho, com margem de erro de três pontos percentuais, mostra Ciro Gomes com 45,8% e Elmano de Freitas com 44,8% no primeiro turno, tecnicamente empatados. Em eventual segundo turno, Ciro aparece com 53,2%, contra 44,9% de Elmano.