O novo relatório da Instituição Fiscal Independente recoloca o debate fiscal brasileiro no ponto que a conversa pública costuma evitar: a trajetória da dívida não será enfrentada seriamente enquanto o país tratar juros estratosféricos como fenômeno natural. O documento projeta que a dívida bruta do governo, hoje em 80,1% do PIB, pode chegar a 115% do PIB em 2036, patamar descrito pelo próprio relatório como “um nível de endividamento extremamente elevado”.
O dado aparece no Relatório de Acompanhamento Fiscal 113, divulgado pela IFI e registrado pela Agência Senado. A instituição, vinculada ao Senado Federal, cumpre aqui uma função técnica relevante: mostra que o próximo presidente da República receberá um quadro duro, que não será resolvido com frases de efeito, chantagem contra aposentados ou caça ritual ao funcionalismo público.
A pergunta incômoda é outra. Se o endividamento avança em ritmo perigoso, por que a imprensa corporativa insiste em mirar quase sempre o gasto social, enquanto preserva a política de juros como se fosse uma cláusula pétrea da República? É nesse ponto que o presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, deixa de ser apenas um operador técnico e passa a ocupar o centro de um conflito político de primeira grandeza.
A política monetária sob comando do Banco Central mantém o país preso a juros reais excepcionalmente elevados, com efeito direto sobre o Tesouro Nacional e sobre a capacidade do Estado de financiar políticas públicas. Dados oficiais do IBGE em parceria com o Tesouro Nacional indicam que o Governo Geral gastou R$ 971 bilhões com pagamento de juros da dívida pública em 2024, cifra que ajuda a explicar por que qualquer regra fiscal vira uma corrida contra uma esteira ligada no máximo.
O contraste é brutal porque revela a assimetria do debate. Cálculos da pesquisadora Tatiana Pinheiro, da Fundação Getulio Vargas, apontam que estabilizar a trajetória da dívida exigiria superávit primário próximo de 2,5% do PIB, algo em torno de R$ 450 bilhões. Apenas nos primeiros onze meses de 2024, o Tesouro Nacional desembolsou R$ 559,8 bilhões com juros nominais, valor superior ao esforço fiscal anual estimado para recolocar as contas em rota sustentável.
Essa comparação não elimina a necessidade de escolhas orçamentárias difíceis, mas muda a hierarquia do problema. Quando o custo parcial dos juros supera em mais de R$ 100 bilhões o ajuste anual apontado como necessário, fica difícil sustentar a fantasia de que o drama fiscal brasileiro se explica sobretudo por salários, aposentadorias ou programas sociais. A conta que sangra o orçamento tem endereço conhecido: a remuneração da dívida em um país submetido a uma política monetária que favorece o rentismo.
O roteiro preferido da grande imprensa é conhecido e, por isso mesmo, cada vez menos convincente. Dramatiza-se o gasto primário, transforma-se previdência em suspeita permanente, coloca-se o servidor público no banco dos réus e se preserva a renda financeira como se ela habitasse uma esfera moral superior. O problema é que a dívida não cresce apenas porque o Estado gasta, mas porque paga caro demais para rolar a própria dívida.
O próprio Banco Central reconhece, em seus dados fiscais, que a incorporação de juros nominais é um dos principais fatores de aumento da Dívida Bruta do Governo Geral. Em maio de 2026, a autoridade monetária detalhou que a alta do endividamento foi puxada pelo crescimento dos juros. É o velho efeito bola de neve: quando a taxa de juros real supera o crescimento da economia, a dívida engorda por inércia, mesmo quando o governo tenta conter despesas primárias.
Galípolo conhece essa engrenagem por dentro e isso torna sua posição ainda mais sensível. Antes de chegar à presidência do Banco Central, ele participou de decisões do Comitê de Política Monetária em que defendeu cortes mais fortes na Selic e chegou a classificar o patamar dos juros no Brasil como uma «anomalia» estrutural. A questão política, agora, é que a cadeira de comando cobra mais do que diagnóstico elegante: cobra capacidade de romper com a lógica que transforma o arcabouço fiscal em peça decorativa diante da voracidade financeira.
O alerta da IFI ganha força justamente porque não autoriza uma leitura simplória de terra arrasada. O IBGE informou que o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 frente ao trimestre anterior e chegou a R$ 3,3 trilhões, com altas nos três grandes setores. O Relatório de Política Monetária do Banco Central de junho de 2026 também registrou esse desempenho, sinal de que a economia real não confirma o catastrofismo usado para justificar arrocho permanente.
O próximo governo terá, sim, decisões fiscais difíceis, e a IFI presta serviço público ao colocar números incômodos na mesa. Mas a decisão mais difícil talvez seja enfrentar a blindagem ideológica que protege a renda financeira enquanto exige sacrifício de quem depende de serviço público, aposentadoria e salário. Se a discussão continuar tratando juros como detalhe técnico e gasto social como pecado original, o país seguirá chamando de responsabilidade fiscal aquilo que, na prática, funciona como transferência bilionária para os detentores da dívida.