Maioria vê interferência de Trump ao tratar facções brasileiras como terrorismo

O ex-presidente norte-americano Donald Trump e o senador brasileiro Flávio Bolsonaro. (Foto: Reprodução / Redes Sociais)

A pesquisa Ipsos-Ipec sobre a tentativa do presidente dos EUA, Donald Trump, de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas captou algo maior do que uma divergência técnica sobre segurança pública. A maioria dos brasileiros leu a manobra como interferência externa em assunto que cabe ao Brasil decidir, sem tutela de Washington, sem carimbo imperial e sem importação automática da doutrina penal norte-americana.

O levantamento divulgado nesta sexta-feira, 26, mostra que 54% concordam total ou parcialmente que a medida anunciada por Trump representa intromissão em temas brasileiros. Outros 35% discordam total ou parcialmente dessa avaliação, enquanto 4% não concordam nem discordam e 8% não souberam ou não responderam, conforme os dados do levantamento Ipsos-Ipec.

A composição interna da resposta aprofunda o sinal político. Entre os entrevistados, 39% concordam totalmente com a afirmação de que a classificação seria interferência em assuntos que dizem respeito apenas ao Brasil, enquanto 15% concordam em parte. No campo oposto, 11% discordam em parte e 24% discordam totalmente, um bloco relevante, mas inferior ao contingente que percebe risco de ingerência.

O dado enfraquece a leitura confortável para setores da direita brasileira de que os Estados Unidos poderiam redesenhar por decreto a política criminal de outro país. Combater facções é obrigação do Estado brasileiro, com inteligência, investigação financeira, cooperação internacional e força institucional. Submeter esse debate ao vocabulário de guerra de Washington é outra coisa, e a população parece ter distinguido uma coisa da outra com mais lucidez do que certos porta-vozes do alinhamento automático.

Trump aparece no centro desse conflito como personagem real, não como abstração diplomática. Ao tentar enquadrar facções brasileiras pela lógica de segurança dos EUA, o presidente norte-americano não oferece apenas uma etiqueta jurídica, mas uma arquitetura política de pressão, sanções, bloqueios e vigilância financeira. A maioria captada pela pesquisa reage justamente a esse ponto: segurança pública não pode virar atalho para uma potência estrangeira ocupar o comando simbólico da política interna brasileira.

A ofensiva de Trump também carrega uma contradição factual incômoda. Na lista divulgada pelo Departamento de Estado dos EUA em fevereiro de 2025, a designação de organizações criminosas internacionais incluiu cartéis mexicanos, o Tren de Aragua e a MS-13, mas não registrou PCC nem Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras. Esse dado reforça o caráter político da disputa aberta no Brasil, mais do que uma simples atualização técnica de segurança internacional.

O presidente norte-americano tenta ocupar o espaço simbólico de xerife hemisférico, velha fantasia de Washington reciclada a cada crise latino-americana. O problema é que a rejeição captada pelo Ipsos-Ipec não depende apenas de simpatia ou antipatia pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela revela uma percepção soberanista mais ampla, inclusive intuitiva, de que o Brasil pode cooperar no combate ao crime sem aceitar que sua política criminal seja escrita em inglês, em outro território e segundo prioridades eleitorais de Trump.

Há ainda um ponto que raramente aparece no discurso moralista de Washington. O relatório mundial sobre drogas do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime aponta a América do Norte como um dos principais mercados de destino da cocaína. A pesquisa oficial norte-americana NSDUH de 2023 estimou cerca de 5,0 milhões de usuários de cocaína no último ano nos EUA, número que coloca o país no centro da demanda que sustenta a cadeia transnacional da droga.

A força do levantamento está justamente em deslocar o debate da retórica policial para a disputa de autoridade política. Quando uma maioria identifica interferência, ela não absolve facções nem relativiza crimes; ela afirma que o enfrentamento ao crime organizado precisa obedecer a prioridades brasileiras, com controle público, responsabilidade institucional e cooperação internacional subordinada à soberania nacional.

Esse é o ponto político que a pesquisa ajuda a iluminar com rara nitidez. Soberania não é abstração de manual diplomático, mas proteção prática contra decisões externas capazes de afetar renda familiar, circulação financeira, relações jurídicas e prioridades de segurança. Quando 54% dizem ver interferência, recusam a ideia de que Trump possa usar o combate ao crime organizado como licença para importar ao Brasil uma gramática de guerra permanente.

O Brasil tem problemas reais e graves com facções criminosas, e ninguém sério deveria minimizá-los. Mas a resposta a esses problemas precisa nascer de instituições brasileiras, com cooperação internacional submetida a regras claras e autoridade democrática. A pesquisa Ipsos-Ipec mostra que, diante da tentativa de Trump de vestir a política criminal brasileira com uniforme norte-americano, a maioria do país escolheu uma palavra simples, antiga e decisiva: soberania.

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