O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recolocou a soberania no centro do debate ao criticar as ambições territoriais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre áreas estratégicas como o Canal do Panamá, a Groenlândia e o Canadá. A frase mais ruidosa, ao dizer que está ‘cheio de nego maluco no mundo’, funciona menos como desabafo e mais como alerta político diante de uma potência que volta a falar em anexação como se o século 19 tivesse pedido segunda via.
Em fala registrada em relato publicado pelo G1, Lula defendeu que o Brasil invista em defesa e criticou diretamente Trump por tratar territórios alheios como peças disponíveis no balcão geopolítico de Washington. O ponto central da fala é simples e incômodo para o catecismo liberal que costuma tratar Forças Armadas apenas como gasto: país que não protege sua soberania vira objeto de negociação dos outros.
A força do argumento aparece com nitidez no caso do Panamá. O país aboliu seu Exército em 1990, depois da invasão dos Estados Unidos em 1989, e consolidou a proibição constitucional em 1994, substituindo a defesa militar por forças policiais e de segurança. É justamente contra esse Estado desmilitarizado que Trump, em janeiro de 2025, recusou-se a descartar o uso de força militar para retomar o Canal do Panamá, alegando controle chinês e tarifas injustas, segundo a Reuters.
O presidente do Panamá, José Raúl Mulino, reagiu afirmando que ‘cada metro quadrado’ do Canal pertence ao Panamá. A resposta é importante porque desmonta a fantasia de que a ameaça americana se dirige apenas a rivais armados ou potências militares capazes de desafiar Washington. No caso panamenho, o alvo é um país latino-americano sem Exército, dono de um ativo estratégico que o império nunca deixou de cobiçar.
A Groenlândia expõe outra camada da mesma lógica. Os Estados Unidos já mantêm ali a Pituffik Space Base, antiga Thule Air Base, instalada a partir do acordo de defesa de 1951 entre Washington e a Dinamarca e hoje operada pela Força Espacial norte-americana como estrutura de alerta de mísseis e vigilância no Ártico. A cooperação militar, portanto, existe há décadas, mas Trump avançou um degrau ao se recusar a descartar coerção militar ou econômica para tomar a ilha, apresentada por ele como ‘necessária’ à segurança americana.
Esse salto é exatamente o que dá densidade ao alerta de Lula. Quando uma potência que já possui base militar em território aliado passa a falar em anexação, a soberania deixa de ser fórmula de chanceleria e vira linha de defesa contra a transformação de um país em propriedade estratégica. A diplomacia brasileira, sob Lula, entende esse movimento porque a história latino-americana foi escrita muitas vezes sob a sombra de embaixadas, frotas e memorandos vindos do Norte.
O Brasil conhece esse roteiro. Registros desclassificados publicados pelo National Security Archive, da George Washington University, documentam que Washington acompanhou e apoiou a derrubada do presidente João Goulart em 1964, inclusive com a Operação Brother Sam, preparada para abastecer os golpistas caso houvesse resistência. O alvo era um governo que buscava margem própria na Guerra Fria, com reformas internas e política externa menos subordinada aos Estados Unidos.
Seis décadas depois, Trump reabilita a linguagem imperial sem o constrangimento diplomático que antes ao menos exigia eufemismos. Ao tratar o Canadá como possível ’51º estado’ e ao se recusar a descartar pressão econômica, o presidente americano transforma até aliados históricos em peças subordinadas à vontade de Washington. O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, reagiu em janeiro de 2025 dizendo que ‘não há a menor chance’ de o país virar parte dos Estados Unidos.
Lula não está fazendo literatura antiamericana de ocasião. Está apontando uma contradição material: o mesmo centro de poder que costuma dar aulas sobre ‘ordem internacional’ e ‘democracia’ volta e meia aparece flertando com coerção territorial, intervenção e tutela sobre países que considera úteis demais para serem plenamente soberanos. A novidade, com Trump, é a franqueza brutal de quem já nem se preocupa em vestir a velha política imperial com terno de seminário acadêmico.
É nesse ponto que a defesa nacional entra no debate sem nostalgia autoritária nem fantasia militarista. Para Lula, soberania é condição para que o Brasil decida seu destino, proteja seus recursos, conduza sua política externa e participe de um mundo multipolar sem pedir licença a Washington. Em tempos de BRICS ampliado, disputa por rotas estratégicas, bases militares no Ártico e chantagens sobre canais interoceânicos, neutralidade desarmada pode virar apenas outro nome para vulnerabilidade.
O recado político é direto: soberania não é ornamento diplomático, é seguro de vida para países que não querem virar nota de rodapé no tabuleiro dos Estados Unidos. Ao mirar Trump, Lula fala também ao Brasil que a mídia corporativa prefere infantilizar quando o assunto é defesa: um país continental, rico em energia, água, alimentos, minérios e tecnologia não pode depender da boa educação de impérios. A história mostra que, quando Washington decide querer um canal, uma base, uma ilha ou um governo, a prudência recomenda ter Estado, projeto nacional e coluna vertebral.