Lula confronta Trump em defesa da soberania do Brasil

Presidente Lula durante discurso de anúncio de medidas econômicas no Palácio do Planalto, em Brasília, na manhã de 15 de abril de 2026. Foto: Foto: Palácio do Planalto — Flickr.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recolocou a soberania no centro do debate ao criticar as ambições territoriais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre áreas estratégicas como o Canal do Panamá, a Groenlândia e o Canadá. A frase mais ruidosa, ao dizer que está ‘cheio de nego maluco no mundo’, funciona menos como desabafo e mais como alerta político diante de uma potência que volta a falar em anexação como se o século 19 tivesse pedido segunda via.

Em fala registrada em relato publicado pelo G1, Lula defendeu que o Brasil invista em defesa e criticou diretamente Trump por tratar territórios alheios como peças disponíveis no balcão geopolítico de Washington. O ponto central da fala é simples e incômodo para o catecismo liberal que costuma tratar Forças Armadas apenas como gasto: país que não protege sua soberania vira objeto de negociação dos outros.

A força do argumento aparece com nitidez no caso do Panamá. O país aboliu seu Exército em 1990, depois da invasão dos Estados Unidos em 1989, e consolidou a proibição constitucional em 1994, substituindo a defesa militar por forças policiais e de segurança. É justamente contra esse Estado desmilitarizado que Trump, em janeiro de 2025, recusou-se a descartar o uso de força militar para retomar o Canal do Panamá, alegando controle chinês e tarifas injustas, segundo a Reuters.

O presidente do Panamá, José Raúl Mulino, reagiu afirmando que ‘cada metro quadrado’ do Canal pertence ao Panamá. A resposta é importante porque desmonta a fantasia de que a ameaça americana se dirige apenas a rivais armados ou potências militares capazes de desafiar Washington. No caso panamenho, o alvo é um país latino-americano sem Exército, dono de um ativo estratégico que o império nunca deixou de cobiçar.

A Groenlândia expõe outra camada da mesma lógica. Os Estados Unidos já mantêm ali a Pituffik Space Base, antiga Thule Air Base, instalada a partir do acordo de defesa de 1951 entre Washington e a Dinamarca e hoje operada pela Força Espacial norte-americana como estrutura de alerta de mísseis e vigilância no Ártico. A cooperação militar, portanto, existe há décadas, mas Trump avançou um degrau ao se recusar a descartar coerção militar ou econômica para tomar a ilha, apresentada por ele como ‘necessária’ à segurança americana.

Esse salto é exatamente o que dá densidade ao alerta de Lula. Quando uma potência que já possui base militar em território aliado passa a falar em anexação, a soberania deixa de ser fórmula de chanceleria e vira linha de defesa contra a transformação de um país em propriedade estratégica. A diplomacia brasileira, sob Lula, entende esse movimento porque a história latino-americana foi escrita muitas vezes sob a sombra de embaixadas, frotas e memorandos vindos do Norte.

O Brasil conhece esse roteiro. Registros desclassificados publicados pelo National Security Archive, da George Washington University, documentam que Washington acompanhou e apoiou a derrubada do presidente João Goulart em 1964, inclusive com a Operação Brother Sam, preparada para abastecer os golpistas caso houvesse resistência. O alvo era um governo que buscava margem própria na Guerra Fria, com reformas internas e política externa menos subordinada aos Estados Unidos.

Seis décadas depois, Trump reabilita a linguagem imperial sem o constrangimento diplomático que antes ao menos exigia eufemismos. Ao tratar o Canadá como possível ’51º estado’ e ao se recusar a descartar pressão econômica, o presidente americano transforma até aliados históricos em peças subordinadas à vontade de Washington. O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, reagiu em janeiro de 2025 dizendo que ‘não há a menor chance’ de o país virar parte dos Estados Unidos.

Lula não está fazendo literatura antiamericana de ocasião. Está apontando uma contradição material: o mesmo centro de poder que costuma dar aulas sobre ‘ordem internacional’ e ‘democracia’ volta e meia aparece flertando com coerção territorial, intervenção e tutela sobre países que considera úteis demais para serem plenamente soberanos. A novidade, com Trump, é a franqueza brutal de quem já nem se preocupa em vestir a velha política imperial com terno de seminário acadêmico.

É nesse ponto que a defesa nacional entra no debate sem nostalgia autoritária nem fantasia militarista. Para Lula, soberania é condição para que o Brasil decida seu destino, proteja seus recursos, conduza sua política externa e participe de um mundo multipolar sem pedir licença a Washington. Em tempos de BRICS ampliado, disputa por rotas estratégicas, bases militares no Ártico e chantagens sobre canais interoceânicos, neutralidade desarmada pode virar apenas outro nome para vulnerabilidade.

O recado político é direto: soberania não é ornamento diplomático, é seguro de vida para países que não querem virar nota de rodapé no tabuleiro dos Estados Unidos. Ao mirar Trump, Lula fala também ao Brasil que a mídia corporativa prefere infantilizar quando o assunto é defesa: um país continental, rico em energia, água, alimentos, minérios e tecnologia não pode depender da boa educação de impérios. A história mostra que, quando Washington decide querer um canal, uma base, uma ilha ou um governo, a prudência recomenda ter Estado, projeto nacional e coluna vertebral.

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