Mercosul acelera uso de moedas locais para abandonar o dólar

O Mercosul discute um salto na integração financeira regional que pode transformar a forma como empresas e governos realizam pagamentos internacionais. A proposta combina a ampliação do uso de moedas locais nas transações entre os países do bloco com a criação de um sistema de pagamentos instantâneos inspirado no Pix, reduzindo custos, acelerando operações e diminuindo a dependência do dólar e da rede Swift.

A ideia foi apresentada em um estudo publicado na revista Tempo do Mundo, do Ipea, elaborado por três auditores do Banco Central. Os autores defendem que a arquitetura financeira internacional, fortemente baseada no dólar e na infraestrutura da Swift, tornou-se também um instrumento de influência geopolítica. Diante desse cenário, afirmam que o fortalecimento de mecanismos regionais pode ampliar a autonomia econômica dos países do Mercosul.

Hoje, o bloco já dispõe do Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML), que permite que empresas brasileiras, argentinas, uruguaias e paraguaias negociem utilizando suas próprias moedas, sem necessidade de converter cada operação em dólar. O mecanismo, porém, ainda é pouco utilizado e mantém limitações importantes, já que a liquidação entre os bancos centrais continua dependendo do dólar e as mensagens financeiras passam pela rede Swift.

Os números mostram o potencial ainda inexplorado do sistema. Em média, o SML responde por cerca de 5% das operações entre Brasil e Argentina, 3,5% entre Brasil e Uruguai e 2% entre Brasil e Paraguai. Os pesquisadores atribuem essa baixa utilização à preferência de parte das empresas pelo dólar, à adesão limitada dos bancos e ao fato de o sistema ainda operar com liquidação relativamente lenta e em horário comercial.

É nesse contexto que entra o Pix. O sistema brasileiro de pagamentos instantâneos tornou-se uma referência internacional pela rapidez, baixo custo e ampla adoção. A proposta dos pesquisadores é utilizar essa experiência para criar uma infraestrutura regional interoperável, capaz de conectar os sistemas nacionais de pagamentos instantâneos dos países do Mercosul. Na prática, um exportador brasileiro poderia receber em reais enquanto o comprador argentino pagaria em pesos, com liquidação quase imediata entre os bancos centrais.

Além dos ganhos operacionais, a proposta tem forte dimensão estratégica. Reduzir a dependência do dólar significa diminuir custos cambiais, ampliar a previsibilidade para exportadores e importadores e reduzir a vulnerabilidade da região a choques externos e sanções financeiras internacionais. O congelamento de reservas internacionais da Rússia e a exclusão de bancos russos da Swift após a guerra na Ucrânia reforçaram, para diversos países, a importância de construir alternativas regionais de pagamentos.

Especialistas, porém, ressaltam que a tecnologia, por si só, não resolve o problema. Para que um “Pix internacional” do Mercosul funcione, será necessária uma governança comum entre os bancos centrais, harmonização regulatória, mecanismos eficientes de compensação cambial e segurança jurídica para empresas e instituições financeiras. Sem esses elementos, a inovação tecnológica pode não se converter em maior integração econômica.

O debate também ocorre em um momento em que o Pix ganhou dimensão geopolítica. O governo brasileiro tem defendido o sistema como um símbolo de soberania financeira e rejeitado qualquer tentativa de incluí-lo em negociações comerciais internacionais, argumentando que ele representa uma inovação pública que ampliou a inclusão financeira e reduziu custos para milhões de brasileiros.

Se a proposta avançar, o Mercosul poderá dar um passo importante para modernizar sua infraestrutura financeira. Mais do que acelerar pagamentos, um sistema regional baseado em moedas locais e inspirado no Pix poderá fortalecer o comércio intrabloco, reduzir custos para empresas e ampliar a autonomia econômica dos países sul-americanos em um cenário internacional cada vez mais marcado pela disputa entre tecnologia, finanças e geopolítica.

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