Ministros do Supremo Tribunal Federal projetam que a Corte seguirá no centro da crise política brasileira a partir de 2027, mas a diferença entre os cenários é decisiva. A tensão esperada em eventual novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não tem a mesma natureza do embate permanente previsto caso o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, chegue ao Planalto.
A tentativa de colocar Lula e Flávio no mesmo plano serve ao velho conforto da falsa simetria, tão útil à imprensa corporativa quando precisa parecer equidistante sem enfrentar o conteúdo real dos fatos. De um lado, há divergências públicas, pressões institucionais e atritos normais de um regime democrático. Do outro, há um personagem que fez da ofensiva contra o STF uma linha de atuação política, legislativa e eleitoral.
A avaliação de integrantes da Corte, revelada em reportagem da Folha de S.Paulo, aponta que o tribunal continuará como um dos principais focos de tensão nacional seja qual for o vencedor da eleição. O ponto central, porém, está na intensidade e na qualidade do conflito. Com Lula, ministros esperam a Corte na berlinda política; com Flávio, projetam embates diários.
Essa distinção não nasce de antipatia abstrata ao bolsonarismo, mas de uma trilha institucional verificável. Flávio Bolsonaro foi designado relator, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, do PL 5.064/2023, apresentado pelo senador Hamilton Mourão, do Republicanos do Rio Grande do Sul, para conceder anistia a pessoas investigadas, processadas ou condenadas pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
A ficha oficial do Senado registra que a proposta trata de anistia relacionada aos fatos ocorridos em 8 de janeiro, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas em Brasília. Não se trata, portanto, de opinião de palanque ou de frase inflamada em rede social. O senador atua, dentro do Parlamento, como relator de uma pauta que busca reabrir a disputa contra responsabilizações conduzidas pelo próprio Supremo.
O contraste com Lula é evidente. O presidente da República já criticou decisões, composições e movimentos do Judiciário, como fazem chefes de Executivo em democracias tensionadas, mas governou negociando institucionalmente com a Corte. Flávio, ao contrário, aparece ligado a uma engrenagem legislativa concreta para esvaziar a resposta institucional ao ataque mais grave sofrido pela democracia brasileira desde a redemocratização.
O histórico recente reforça a leitura dos ministros. Em 9 de setembro de 2024, parlamentares da oposição protocolaram no Senado um pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, acusando-o de abuso de autoridade, censura e violação de prerrogativas. A Agência Senado registrou a entrega do pedido ao então presidente da Casa, Rodrigo Pacheco, e Flávio Bolsonaro apareceu entre os apoiadores da ofensiva.
O detalhe importa porque o Senado é o órgão competente para processar impeachment de ministros do STF. Quando um senador com ambição presidencial apoia esse tipo de iniciativa contra um ministro que concentrou decisões sobre atos golpistas, milícias digitais e ataques às instituições, ele não está apenas criticando a Corte. Está ajudando a converter o tribunal em inimigo político permanente, com método e endereço.
Também pesa a atuação pública do próprio Flávio na tribuna. Em pronunciamentos ao longo do mandato, o senador tem atacado repetidamente ministros do STF, como Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes, acusando-os de abuso, censura, perseguição política e interferência judicial. É a gramática conhecida do bolsonarismo: transformar decisão judicial contra a extrema direita em prova de conspiração contra a direita.
Essa sequência desmonta a equivalência preguiçosa entre os cenários. Lula pode tensionar, reclamar, disputar nomeações e criticar decisões, mas opera dentro de uma lógica de governo que reconhece a centralidade das instituições. Flávio carrega o sobrenome e a prática política de um campo que, quando perdeu no voto, flertou com ruptura, pressionou quartéis e tentou transformar o 8 de Janeiro em mal-entendido patriótico.
Há ainda uma consequência institucional concreta. Um governo Flávio tenderia a pressionar o Supremo por múltiplas frentes: anistia legislativa, retórica de perseguição, pedidos extremos contra ministros e mobilização permanente de uma base que enxerga o tribunal como obstáculo a ser vencido. Nesse ambiente, cada decisão sobre golpismo, inelegibilidade, milícias digitais ou responsabilização penal viraria munição diária para o Planalto.
A normalidade democrática brasileira já convive com tensão suficiente entre Poderes. Fingir que Lula e Flávio representam o mesmo risco ao STF é uma elegância falsa, daquelas que confundem equilíbrio jornalístico com miopia política. A Corte sabe, e os fatos mostram, que a diferença entre crítica institucional e guerra contra o tribunal não é detalhe semântico: é a linha que separa conflito republicano de sabotagem democrática.