Índia inclui 500 milhões de pessoas no sistema financeiro em apenas 10 anos

A Índia consolidou uma das maiores revoluções de inclusão financeira do século XXI. Em apenas dez anos, cerca de 500 milhões de pessoas passaram a integrar o sistema de finanças digitais do país, resultado de uma estratégia que combinou identificação digital, pagamentos instantâneos, internet móvel e serviços públicos digitalizados em escala nacional.

O balanço foi apresentado por Mansi Kumari, professora associada e coordenadora do Centro de Estudos do BRICS da Universidade Amity, durante o programa BRICSdiálogo, da TV BRICS. Segundo a especialista, a transformação indiana ainda é subestimada internacionalmente, apesar de representar um dos maiores casos de digitalização já realizados por um país com população superior a 1,4 bilhão de habitantes.

A espinha dorsal dessa mudança é a chamada Infraestrutura Pública Digital (Digital Public Infrastructure – DPI). O sistema reúne três pilares principais: o Aadhaar, plataforma nacional de identificação digital; a Unified Payments Interface (UPI), que permite pagamentos instantâneos entre bancos; e o DigiLocker, onde cidadãos armazenam documentos oficiais de forma eletrônica. Juntos, esses sistemas reduziram burocracias, facilitaram o acesso a serviços públicos e ampliaram a inclusão financeira em regiões urbanas e rurais.

Os números impressionam. Aproximadamente 99% da população possui um registro no Aadhaar, o equivalente a cerca de 1,4 bilhão de pessoas. A UPI processa cerca de 20 bilhões de transações por mês, permitindo pagamentos instantâneos até para pequenas compras do cotidiano, enquanto o DigiLocker elimina a necessidade de portar documentos físicos em diversas situações.

A transformação também alcançou o interior do país. A Índia possui hoje mais de 1 bilhão de conexões móveis, cerca de 1 bilhão de usuários de internet e aproximadamente 70% da população já tem acesso à rede. Mais da metade desses usuários vive fora dos grandes centros urbanos, demonstrando que a digitalização deixou de ser um fenômeno restrito às metrópoles. Segundo Kumari, cerca de 44% dos internautas indianos utilizam inteligência artificial diariamente, enquanto 90% acessam a internet todos os dias.

O caso indiano tornou-se referência internacional porque demonstra que inclusão financeira depende tanto de infraestrutura digital quanto de políticas públicas coordenadas. Ao integrar identidade, pagamentos, conectividade e serviços governamentais em um único ecossistema, o país reduziu custos de transação, ampliou a bancarização e facilitou o acesso de milhões de cidadãos a crédito, benefícios sociais e comércio eletrônico.

A experiência desperta interesse crescente entre os países do BRICS. Em fevereiro deste ano, Brasil e Índia lançaram oficialmente a Parceria Digital Brasil–Índia para o Futuro, iniciativa destinada a ampliar a cooperação em infraestrutura digital, inovação, inteligência artificial, serviços públicos digitais e sistemas de pagamento.

Mais do que um avanço tecnológico, a experiência indiana mostra que infraestrutura pública digital pode se transformar em instrumento de desenvolvimento econômico.

Ao conectar centenas de milhões de pessoas ao sistema financeiro em apenas uma década, a Índia demonstra como tecnologia, inclusão social e política pública podem atuar em conjunto para impulsionar crescimento, produtividade e cidadania em larga escala.

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