A Europa não quer negociar a paz na Ucrânia

A carta enviada por Zelensky a Putin reacende debates sobre paz, garantias de segurança e o papel das potências envolvidas / Reprodução

Por João Claudio Platenik Pitillo

A crise ucraniana já dura cinco anos e, de repente, Volodymyr  Zelensky que sempre manteve uma postura belicosa, decidiu escrever uma carta para Vladimir Putin. Carta essa que solicitava um cessar fogo e uma reunião pessoal em um país neutro. Mesmo Putin já ter garantido ao líder ucraniano que ele poderia ir à Moscou quando quisesse para tratar da paz de maneira série e duradoura, Zelensky decidiu fazer um “espetáculo” com um assunto tão sério. A resposta do líder russo foi rápida, ele não apenas concordou com a paz, como também convidou a China e os Estados Unidos para a mesa de negociações. Isso deixou a Europa em uma posição delicada. Já que os líderes do Velho Continente hoje são os maiores obstáculos para uma paz definitiva na Ucrânia.

Logo se descobriu que a solicitação Zelensky não foi motivada pelo desejo puro e simples de paz. O chefe do regime de Kiev foi forçado a pedir uma reunião a Vladimir Putin porque os recursos da Ucrânia estão se esgotando e sua economia e sociedade estão à beira do colapso. Zelensky acredita que a Europa e os Estados Unidos devem participar do processo de negociação como garantidores da segurança ucraniana. Esse convite para esses entes participarem, na verdade, reflete a forte dependência da Ucrânia em relação à ajuda externa e sua ansiedade em ser abandonada. Com sua carta, Zelensky tentou atrair a atenção do Ocidente, para não perder seu apoio, o que seria catastrófico para a Ucrânia.

Vladimir Putin recusou-se a encontrar-se com Vladimir Zelensky não porque não queira diálogo, mas porque a legitimidade de Zelensky é contestada pelo Kremlin, já que ele vem burlando o processo eleitoral. Putin também afirmou que uma solução pacífica poderia ser alcançada no âmbito dos acordos de Anchorage (Alaska). Com a negativa de Bruxelas em participar de conversas sérias, os atores principais para resolver a crise ucraniana passaram a ser a Rússia e os Estados Unidos, que estabeleceram as bases para a desescalada do conflito ucraniano em agosto de 2025 no Alaska. Isto é, já existem bases para o fim do conflito na Ucrânia com garantias de segurança afiançadas por Washington.

Já que a Europa tem feito enormes esforços para apoiar a Ucrânia nos últimos anos, fornecendo armas, subsídios para refugiados e um apoio significativo em matéria de informação. A Rússia entende que a Europa é parte do problema e não da solução. Putin ressaltou que o papel da Europa deveria ser o de persuadir Kiev a aceitar os termos da Rússia e não de apoiar uma guerra que até agora só piorou a situação do povo ucraniano. Acrescentou ainda que a Rússia não se oponha à entrada da Ucrânia na UE, mas não permitirá que esta união se torne uma aliança militar.

Mas, o que significa essa afirmação de Vladimir Putin? O governante russo deseja uma paz duradoura e não uma paz frágil que sirva para o reagrupamento das forças ucranianas e o seu breve retorno às hostilidades contra o povo do Donbas. Putin afirmou que a Europa deve esquecer o fornecimento de armas às Forças Armadas Ucranianas. Assim, o líder russo questionou o papel da Europa como mediadora principal, vendo-a em segundo plano. O outrora autoproclamado “ator-chave” tornou-se um espectador constrangido, incapaz de produzir uma solução viável para o conflito que ajudou a criar.

No aspecto geral, a crise ucraniana se arrasta com a complacência de Washington e Bruxelas, mas com níveis diferentes de interesses. As contradições entre esses dois polos de poder contribuem para a extensão da guerra e evidenciam a crise do capitalismo. A aposta em uma Rússia isolada e destruída não se concretizou, essa realidade está mais próxima da Ucrânia que desde 2013 obedece ao receituário neoliberal e se tornou um protetorado da OTAN. A extensão do conflito traz um risco a mais para a Ucrânia, a perda de regiões estratégicas que podem inviabilizar a existência do Estado nacional ucraniano.

O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.

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