A crise interna no bolsonarismo ganhou um novo capítulo após o jornalista Paulo Figueiredo, aliado histórico da família Bolsonaro, fazer duras críticas à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e afirmar que as mulheres “votam estatisticamente mal”. As declarações aprofundam o desgaste entre integrantes do campo conservador em um momento decisivo da pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
Durante seu podcast, Figueiredo criticou a atuação de Michelle à frente do PL Mulher e afirmou que a ex-primeira-dama estaria incorporando uma agenda “identitária” incompatível com a direita. Em seguida, fez comentários sobre o comportamento eleitoral feminino, dizendo que “mulher vota estatisticamente mal”, sobretudo as solteiras, e que mulheres casadas costumam acompanhar o voto do marido.
O ataque ocorre poucos dias depois de Michelle divulgar um vídeo de quase 30 minutos relatando um profundo desentendimento com Flávio Bolsonaro. Na gravação, ela acusou o senador de desrespeitá-la e de minimizar sua participação política dentro do PL, expondo uma divisão inédita na família Bolsonaro e no núcleo dirigente da direita brasileira.
As declarações de Figueiredo aumentam o custo político da crise porque atingem justamente um dos segmentos mais estratégicos para qualquer candidatura presidencial: o eleitorado feminino. Nas últimas eleições, pesquisas mostraram que as mulheres apresentaram comportamento eleitoral distinto do masculino em diversos momentos da campanha, tornando-se um público decisivo para a definição do resultado.
Michelle Bolsonaro construiu sua relevância política exatamente nesse espaço. Como presidente do PL Mulher, ampliou sua presença entre eleitoras conservadoras, especialmente no segmento evangélico, e passou a ser considerada uma das principais lideranças da direita fora do núcleo familiar de Jair Bolsonaro. Sua capacidade de dialogar com o público feminino é vista por aliados como um dos principais ativos eleitorais do campo bolsonarista.
Nesse contexto, as declarações de Paulo Figueiredo criam um constrangimento adicional para a campanha de Flávio Bolsonaro. Embora não faça parte formal da coordenação eleitoral, ele é identificado como um influenciador próximo ao bolsonarismo e suas críticas reforçam a percepção de desorganização interna, justamente quando o senador tenta consolidar sua candidatura como sucessor político do pai.
Até o momento, Michelle Bolsonaro não respondeu publicamente às declarações do jornalista. Também não houve manifestação oficial da pré-campanha de Flávio Bolsonaro sobre as falas.
O episódio evidencia que a disputa dentro da direita deixou de ser apenas estratégica e passou a ser pública. Mais do que divergências sobre alianças ou candidaturas, o embate agora envolve liderança, protagonismo e a capacidade de manter unido um eleitorado que será decisivo em 2026. Em uma eleição que tende a ser definida por margens estreitas, conflitos internos e declarações que possam afastar segmentos importantes do eleitorado podem ter impacto político muito além da repercussão imediata.