A Polícia Federal abriu um inquérito para investigar suspeitas de irregularidades na destinação de emendas parlamentares a ONGs e empresas ligadas ao filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A apuração foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, e amplia o cerco institucional sobre a rede financeira, empresarial e política que cerca a produção.
O foco da investigação é saber se recursos públicos enviados por emendas parlamentares foram destinados a entidades vinculadas a Karina Ferreira da Gama, responsável pela Go Up Entertainment, produtora do filme. A suspeita central é que verbas originalmente voltadas a projetos sociais, culturais ou tecnológicos possam ter sido desviadas de finalidade ou usadas para beneficiar estruturas relacionadas ao longa.
O caso ganhou força após revelações de que deputados estaduais de São Paulo indicaram ao menos R$ 703 mil em emendas para entidades ligadas à produtora de Dark Horse. O levantamento foi divulgado pela Folha e confirmado pela CNN Brasil, que localizou empresas associadas a Karina Gama em dados de repasses no Portal da Transparência.
A investigação se soma a outra frente já aberta no STF, que apura uma emenda parlamentar ligada ao deputado federal Mário Frias, roteirista do filme. Segundo a Agência Brasil, Dino determinou que Frias prestasse esclarecimentos sobre supostas irregularidades na destinação de recursos a empresas conectadas à produtora da obra.
O problema vai além do cinema. O Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina Ferreira da Gama, já havia sido classificado em auditoria do TCU como entidade “de fachada”, segundo a Agência Pública. Anos depois, o instituto firmou contrato de R$ 108 milhões com a gestão Ricardo Nunes, em São Paulo, posteriormente aditado para mais de R$ 157 milhões, para instalação e manutenção de pontos de internet em comunidades vulneráveis.
Esse histórico transforma Dark Horse em algo maior do que uma cinebiografia política. O filme passou a ser o centro de uma rede de perguntas sobre emendas, contratos públicos, ONGs, produtoras, aliados bolsonaristas e eventual uso de estruturas privadas para movimentar dinheiro de origem pública.
A situação também se conecta ao escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, investigado por supostos repasses ligados ao filme. A PF já havia avaliado acionar a Interpol para rastrear movimentações internacionais do banqueiro, incluindo recursos associados à produção.
Até o momento, os envolvidos negam irregularidades. Mas a abertura de um inquérito pela PF eleva o caso a outro patamar. Agora, a apuração deixa de ser apenas jornalística e política para se tornar uma investigação formal sobre o caminho do dinheiro.
A pergunta central é simples e explosiva: Dark Horse foi financiado apenas por recursos privados ou parte da estrutura em torno do filme se beneficiou de emendas e contratos públicos?
Se a PF encontrar conexão entre dinheiro público e a produção da cinebiografia de Bolsonaro, o caso poderá se transformar em um dos maiores escândalos políticos da pré-campanha de 2026. Um filme criado para construir uma narrativa heroica sobre o ex-presidente pode acabar revelando uma engrenagem bem menos cinematográfica: a mistura entre propaganda política, emendas parlamentares e entidades sob suspeita.