Aeroportos e companhias aéreas pedem à Comissão Europeia que suspenda temporariamente as novas verificações biométricas antes que o verão agrave ainda mais os atrasos
A poucas semanas do pico da temporada de viagens na Europa, um alerta grave chegou à mesa de Ursula von der Leyen. Companhias aéreas e aeroportos afirmam que os novos controles de fronteira já provocam filas de até cinco horas, passageiros esperando ao relento e aviões decolando com metade dos assentos vazios. Diante desse cenário, a indústria decidiu agir antes que a situação piore.
Segundo o Financial Times, em carta conjunta enviada à presidente da Comissão Europeia, as associações ACI Europe, Airlines 4 Europe e IATA pediram autorização para suspender as verificações do novo sistema de entrada e saída da UE. Afinal, o verão europeu está prestes a trazer milhões de viajantes extras aos aeroportos da região, o que tende a sobrecarregar ainda mais uma estrutura já fragilizada.
Segundo as entidades, o período trará um “agravamento significativo de uma situação já muito difícil para os passageiros”, a menos que a Comissão permita que os aeroportos deixem de aplicar os controles quando necessário. Após a divulgação da carta, um porta-voz da Comissão informou ao Financial Times que uma reunião com representantes do setor será convocada “nos próximos dias”.
Vale lembrar que o sistema começou a ser implementado gradualmente em outubro do ano passado. Desde então, cidadãos de fora da UE precisam se registrar com impressões digitais e fotografia logo na chegada ao aeroporto de destino. Na prática, porém, a execução tem sido marcada por falhas nas cabines automatizadas e por filas cada vez mais longas, à medida que os aeroportos tentam, sem muito sucesso, absorver o tempo extra de processamento.
Por essa razão, os grupos do setor pediram à Comissão que permita a suspensão completa das verificações “sempre que o volume de passageiros exceder a capacidade operacional das instalações de controlo fronteiriço” durante julho e agosto. Além disso, defenderam que uma flexibilidade permanente seja mantida mesmo depois de setembro, aplicável a “circunstâncias excecionais claramente definidas”.
As consequências, segundo as entidades, já ultrapassam o incômodo momentâneo nas filas. “Alguns viajantes internacionais estão reconsiderando viagens para a Europa devido à possibilidade de atrasos excessivos nas fronteiras”, afirmaram os grupos do setor. “Isso está prejudicando a reputação da Europa, o turismo europeu e a conectividade, em particular.”
Atualmente, as regras concedem aos países certa flexibilidade para dispensar parte das verificações, embora essa margem deva desaparecer gradualmente a partir de setembro. Mesmo assim, “filas excessivas” continuam se formando pelo continente, segundo alerta a própria carta.
Em resposta, a Comissão sustenta que o impacto do novo sistema — considerado essencial para a segurança dos cidadãos — permanece “limitado” na “maioria dos aeroportos da UE”. Ainda assim, o órgão reconhece que vem apoiando os Estados-Membros onde a situação exige atenção adicional.
Para os representantes da indústria, contudo, mudanças estruturais são indispensáveis. Isso porque muitos aeroportos ainda não contam com pessoal suficiente para operar o novo sistema, os quiosques automatizados seguem instáveis e o aplicativo de pré-cadastro, que já chegou atrasado, ainda não foi totalmente implementado.
Passageiros presos em pátios e aviões meio vazios
A carta descreve cenas que, à primeira vista, pareceriam exagero, mas que já se tornaram rotina em diversos aeroportos europeus. “Os passageiros já foram obrigados a fazer fila por longos períodos fora dos terminais e em pátios descobertos porque os centros de controle de fronteiras não conseguem processar as chegadas com rapidez suficiente”, relata o documento.
O impacto, portanto, não recai apenas sobre quem viaja. As companhias aéreas também sentem o peso da lentidão. “As companhias aéreas enfrentam aviões com metade da capacidade ociosa no horário de fechamento dos portões de embarque, enquanto os passageiros ficam presos em filas no controle de fronteiras”, denunciou a carta.
Um porta-voz da ACI confirmou que parte desses voos sofreu atrasos, enquanto outros precisaram partir deixando passageiros para trás. Diante disso, as entidades reforçam que não se trata apenas de uma questão operacional. “A reputação da União Europeia e a confiança no quadro regulamentar estão… em jogo”, dizia a carta do grupo.
O momento do alerta não é aleatório. Trata-se, até agora, do apelo mais contundente da indústria sobre o sistema, divulgado justamente semanas antes da grande onda de turistas que costuma tomar conta da Europa durante o verão.
“Só durante julho e agosto, prevê-se que os aeroportos europeus recebam cerca de 40 milhões de passageiros a mais do que nos dois meses anteriores”, acrescentaram as associações. “A Comissão e os Estados-Membros devem avaliar a realidade da situação atual e os desafios que o nosso sistema de transporte aéreo enfrentará nas próximas semanas.”
Nesse contexto, vale destacar que os Estados Unidos seguem como a maior fonte internacional de viajantes rumo à Europa, seguidos de perto pelo Reino Unido. Ou seja, qualquer desgaste na experiência desses visitantes tende a repercutir diretamente na economia do turismo europeu.
Até o momento, a Comissão Europeia não respondeu diretamente aos questionamentos sobre a carta. Na semana anterior, no entanto, um porta-voz do órgão já havia defendido o funcionamento do sistema. Segundo ele, “o sistema de entrada/saída está totalmente operacional em todos os países Schengen e funciona bem”, e “as regras proporcionam a flexibilidade necessária para garantir a fluidez das fronteiras”.
Além disso, o representante da Comissão minimizou a relação entre os atrasos e o novo mecanismo de controle. De acordo com ele, “na maioria das vezes, os longos tempos de espera não estão relacionados às operações do EES, mas a fatores preexistentes, como falta de pessoal, limitações de infraestrutura, bem como concentração de voos em horários específicos”.
Enquanto Bruxelas mede as palavras, porém, quem enfrenta o problema todos os dias é o passageiro comum: aquele que faz fila por horas sob o sol, tenta embarcar a tempo e, mesmo assim, vê seu voo partir pela metade. Resta saber se a reunião marcada para os próximos dias trará respostas concretas antes que o verão europeu comece de fato a testar os limites do sistema.