Mísseis e drones russos sufocam a Ucrânia

Sequência de mísseis e drones atinge Kyiv e outras cidades, ampliando a pressão sobre a Ucrânia em uma nova fase da ofensiva russa / AFP

Ataque acontece horas depois de Volodymyr Zelenskyy alertar sobre uma ofensiva em larga escala preparada pelo Kremlin, e deixa mortos, feridos e prédios em chamas na capital ucraniana

A capital ucraniana amanheceu sob fogo nesta quinta-feira (2). Durante a madrugada, a Rússia disparou uma sequência intensa de mísseis e drones contra Kyiv e outras cidades do país, poucas horas depois de o presidente Volodymyr Zelenskyy avisar que Moscou preparava um golpe de grandes proporções. O aviso, portanto, não era retórica vazia: tornou-se realidade em questão de horas.

Segundo o Financial Times, logo após a meia-noite, moradores de Kyiv correram para abrigos antiaéreos e estações de metrô. Dezenas de explosões ensurdecedoras ecoaram pela cidade, interrompendo o sono de uma população já acostumada, mas nunca resignada, ao som da guerra. Em seguida, vieram as primeiras informações sobre vítimas.

Pelo menos uma pessoa morreu e outras 11 ficaram feridas na capital, segundo o chefe do governo local, Tymur Tkachenko, e o prefeito Vitali Klitschko. Além disso, edifícios residenciais sofreram danos importantes. O telhado de um hotel no centro da cidade pegou fogo, enquanto os andares superiores de um prédio de apartamentos foram consumidos pelas chamas, deixando moradores presos dentro de suas casas, segundo relatou Klitschko.

Uma base de ambulâncias também foi atingida durante o bombardeio, ferindo vários socorristas — um deles em estado grave. Ainda de acordo com o prefeito, um edifício residencial de nove andares desabou parcialmente após sofrer um impacto direto de míssil.

A Força Aérea Ucraniana confirmou que mais de 20 mísseis balísticos e de cruzeiro atingiram Kyiv apenas nas duas primeiras horas de ataque. Simultaneamente, cidades do leste e do sul do país também relataram bombardeios, o que reforça o caráter coordenado e nacional da ofensiva russa.

Nos últimos meses, a Rússia intensificou a produção de mísseis balísticos e passou a combiná-los com enxames de drones, uma tática que explora diretamente a escassez de sistemas de defesa aérea Patriot na Ucrânia. Isso porque esses sistemas, fabricados nos Estados Unidos, são atualmente as únicas armas do arsenal ucraniano capazes de interceptar mísseis balísticos russos.

Por essa razão, Zelenskyy vem pedindo há meses mais unidades Patriot aos parceiros ocidentais de Kyiv. Contudo, a resposta segue insuficiente diante da escala dos ataques russos, o que expõe uma lacuna preocupante no apoio militar internacional à Ucrânia.

Na quarta-feira, antes mesmo do bombardeio começar, o presidente ucraniano já alertava a população para que “tenham um cuidado redobrado — mantenham-se seguros e protejam suas famílias e filhos — procurem abrigo e fiquem atentos aos alertas de ataques aéreos na Ucrânia”.

Ao concluir sua visita à Irlanda, Zelenskyy foi direto ao apontar a origem da ameaça. “Sabemos que [o presidente russo Vladimir] Putin vem preparando um ataque massivo contra a Ucrânia há algum tempo”, afirmou. “Essa é exatamente a ameaça que enfrentamos esta noite.”

Enquanto isso, a extensão total das vítimas segue incerta. Klitschko e Tkachenko informaram que equipes de emergência atuavam simultaneamente em vários locais da cidade, onde acreditam haver moradores presos dentro de prédios e sob escombros.

Vale lembrar que esse não é um episódio isolado. Duas semanas antes, outro ataque russo contra Kyiv já havia matado pelo menos cinco pessoas e danificado o mosteiro de Kiev-Pechersk, um patrimônio histórico com 950 anos de existência. A repetição desses bombardeios contra a capital sugere, assim, uma estratégia deliberada de pressão sobre a população civil.

Paralelamente aos bombardeios russos, a Ucrânia intensificou sua própria campanha de drones, mirando infraestrutura de petróleo e gás, além de alvos militares dentro da Rússia e na Crimeia ocupada. Na semana passada, Zelenskyy revelou que o país havia lançado “uma operação de influência de 40 dias”, conduzida pelas unidades de ataque de longo alcance de Kyiv, “com o objetivo de forçar [a Rússia] a pôr fim à guerra”.

Essa ofensiva ucraniana, vale destacar, já produz efeitos concretos. Os ataques com drones de longo alcance levaram a guerra para dentro do território russo e provocaram escassez de combustível em diversas regiões do país. Nesta semana, o próprio Putin reconheceu o impacto das ações ucranianas, admitindo que os “ataques às nossas infraestruturas estão a criar problemas”.

Além disso, uma campanha crescente de drones ucranianos de médio alcance também vem afetando a logística militar russa. Depósitos e linhas de suprimento no sul da Ucrânia e na península da Crimeia têm sido alvos frequentes, prejudicando diretamente a capacidade operacional das forças terrestres de Moscou.

Mesmo diante desses reveses, Putin sinalizou que não pretende recuar de seus objetivos maximalistas na guerra. O líder russo insistiu que as forças de Moscou continuarão uma ofensiva terrestre implacável no leste da Ucrânia, apesar das pesadas baixas registradas em combate.

Diante desse cenário, Zelenskyy voltou a criticar duramente a postura do Kremlin na noite de quarta-feira. “O líder da Rússia se recusa terminantemente a pôr fim à guerra”, declarou. “Ele só vê mais agressões contra a Ucrânia, contra outros países vizinhos e contra a Europa como um todo.”

Assim, enquanto Moscou aposta na intensificação dos bombardeios contra civis e Kyiv responde atingindo a infraestrutura russa, a guerra entra em uma nova fase de desgaste mútuo. No entanto, quem paga o preço mais alto, mais uma vez, são os moradores de Kyiv que passaram a madrugada entre explosões, abrigos lotados e a incerteza sobre quem ainda estaria soterrado sob os escombros.

Rhyan de Meira: Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com
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