Brasil já venceu o novo tarifaço antes dele começar

Presidente Lula durante a LXVIII Cúpula do Mercosul, em Assunção (Paraguai), no dia 30 de junho de 2026. Foto: Ricardo Stuckert / Lula Oficial (Flickr)

Aos 12 meses encerrados em junho de 2026, a corrente de comércio exterior do Brasil — a soma de tudo que o país exportou e importou — alcançou US$ 634,74 bilhões, o maior valor da série histórica, alta de 6,5% sobre os 12 meses imediatamente anteriores. Em uma década, o volume de comércio do país mais que triplicou: era de US$ 181,5 bilhões em 2016-17.

Foram US$ 354,9 bilhões em exportações e US$ 279,9 bilhões em importações, resultando num superávit comercial de US$ 75,0 bilhões. É o segundo maior saldo da série jul-jun — atrás apenas dos US$ 84,5 bilhões registrados no ciclo anterior, o que significa uma queda de 11,2%. O motivo não foi fraqueza das vendas externas (que cresceram 4,3%), mas sim o salto das compras do exterior (+9,5%), reflexo de uma demanda interna aquecida.

É contra esse quadro de pujança que o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou em Washington neste fim de semana. Ele participa nesta terça-feira (7), ao lado do USTR (Representação Comercial dos EUA) e da Comissão de Comércio Internacional americana, de audiências sobre o tarifaço de 25% que o governo Trump quer aplicar sobre praticamente todos os produtos brasileiros a partir de 1º de agosto.

A ironia é que os próprios números do comércio exterior brasileiro — todos eles oficiais, do ComexStat/MDIC — mostram que o Brasil já venceu esse tarifaço antes mesmo de ele começar.

A pauta que sustenta o recorde

Cinco capítulos respondem por mais da metade de tudo o que o Brasil vende ao mundo, nos 12 meses até junho:

Produto Exportação (US$ bi)
Combustíveis minerais / petróleo 61,95
Sementes e grãos oleaginosos / soja 45,21
Minérios, escórias e cinzas 35,44
Carnes e miudezas 30,21
Açúcares e confeitaria 14,69

Desses, três são commodities que o mundo precisa comprar de alguém — soja, minério e petróleo —, e duas são produtos nos quais o Brasil é potência absoluta (carnes e açúcar). A diversidade já é, em si, uma defesa contra qualquer tarifação dirigida.

A virada do petróleo

A história mais forte destes 10 anos está escondida dentro do capítulo de combustíveis. Em 2016-17, o Brasil era deficitário em petróleo e derivados: exportava US$ 10,4 bilhões e importava US$ 11,1 bilhões, um saldo negativo de US$ 0,8 bilhão. Nos 12 meses até junho de 2026, exportou US$ 62,0 bilhões e importou US$ 32,1 bilhões — superávit de US$ 29,9 bilhões.

O pré-sal transformou a balança energética do país. Mas há um detalhe: o Brasil ainda importa US$ 10,3 bilhões em diesel (gasóleo) por ano, o item isolado mais comprado do exterior, porque seu parque de refino não acompanhou a demanda interna. Exporta-se o cru; importa-se o refinado.

Complexo soja: US$ 57,7 bilhões

A soja, principal commodity agrícola exportada, movimentou quase US$ 60 bilhões. O detalhe:

  • Soja em grão: US$ 47,3 bilhões (112,8 bilhões de kg)
  • Farelo/farinha de soja: US$ 8,5 bilhões
  • Óleo de soja: US$ 1,85 bilhão

Quase tudo em grão, in natura — o segundo maior item da pauta, atrás só do petróleo bruto.

Para onde vai tudo isso

A China segue sendo, de longe, o maior parceiro comercial do Brasil. A corrente comercial entre os dois países somou US$ 174,1 bilhões nos 12 meses até junho — mais que o dobro do segundo colocado. O superávit brasileiro com Pequim foi de +US$ 28,1 bilhões.

Os Estados Unidos aparecem em segundo, com corrente de US$ 78,7 bilhões e saldo praticamente zero (−US$ 1,5 bilhão). A União Europeia, tomada como bloco, é a terceira maior parceira: corrente de US$ 100,0 bilhões e superávit brasileiro de +US$ 3,8 bilhões.

Parceiro Corrente (US$ bi) Saldo do Brasil
China 174,1 +28,1
União Europeia 100,0 +3,8
Estados Unidos 78,7 −1,5

Por que o tarifaço não assusta

É aqui que entra o ponto geopolítico central — e os dados o sustentam.

A narrativa de Washington é a de que um tarifaço de 25% (ou até 40%, conforme análise da FTI Consulting, se somado a tarifas recíprocas) “puniria” o Brasil. A realidade é que o Brasil ampliou drasticamente o leque de destinos de suas exportações na última década, reduzindo sua dependência de qualquer comprador único.

Os números são eloquentes:

  1. A China sozinha absorve quase todo o superávit comercial brasileiro (+US$ 28,1 bi). Sem a China, o saldo comercial do Brasil estaria perto do equilíbrio. É ela que compra a soja, o minério, o petróleo e, cada vez mais, a carne.
  2. A relação com os EUA já é equilibrada (saldo de −US$ 1,5 bi). Aplicar 25% sobre produtos brasileiros tende a encarecer insumos para a própria indústria americana e elevar preços ao consumidor dos EUA — não a “dobrar” o Brasil.
  3. Os produtos-prioridade do tarifaço são commodities globalmente demandadas. Soja, minério de ferro e petróleo têm compradores em fila na Ásia, no Oriente Médio e na própria Europa. Se os EUA taxarem a soja brasileira, ela simplesmente vai para a China; se taxarem o aço, ele vai para qualquer outro mercado. O Brasil consegue deslocar o que os EUA deixarem de comprar para outros compradores — exatamente o que ocorreu no tarifaço anterior, quando o agronegócio chinês migrou para o Brasil.
  4. A Holanda, porta de entrada da Europa, registrou superávit brasileiro de +US$ 9,5 bilhões. A Rússia, de quem o Brasil compra fertilizantes essenciais à própria agroexportação, movimentou US$ 13 bilhões. Há uma teia comercial ampla e resiliente.

A tese que os dados confirmam

A audiência desta terça-feira em Washington, com Flávio Bolsonaro pedindo ao USTR a suspensão da tarifa de 25%, se dá num momento em que o Brasil nunca esteve tão forte do ponto de vista comercial. Em 12 meses: recorde de corrente de comércio, segundo maior superávit da história para o período, virada do petróleo e diversificação de mercados.

A ameaça americana é, do ponto de vista estritamente comercial, quase inócua. O Brasil já ampliou seus destinos a ponto de qualquer queda na demanda dos Estados Unidos ser absorvida por outros compradores — principalmente a China, mas também o bloco europeu, o Sudeste Asiático e o Oriente Médio.

Em outras palavras: o Brasil matou, pela diversificação, o efeito de um tarifaço que ainda nem começou. O que Trump assina em 1º de agosto pode até render manchete — mas, pelos números do MDIC, o Brasil já venceu esse novo tarifaço ridículo antes mesmo de ele começar.

📊 Fontes: ComexStat/MDIC (API oficial, valores FOB, janela jul-jun, série 2016-17 a 2025-26); USTR (Section 301 Determination, 1º/06/2026); imprensa (G1, CNN Brasil, R7, Brasil de Fato).

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