Datafolha confirma: fragmentação na direita abre caminho para Tebet e Marina liderarem disputa pelo Senado em SP

A primeira pesquisa Datafolha sobre a corrida ao Senado por São Paulo em 2026 trouxe um retrato que confirma o que analistas já vinham apontando havia semanas: a fragmentação do campo bolsonarista entre três pré-candidatos está deixando as duas vagas paulistas mais abertas do que o line-up natural da direita, hoje governando o estado, faria supor.

Segundo o levantamento, divulgado neste domingo (5) e feito entre 1.608 eleitores paulistas de 71 municípios entre 1º e 3 de julho — com margem de erro de dois pontos percentuais —, a ex-ministra Simone Tebet (PSB) lidera com 18% das intenções de voto, seguida pela também ex-ministra Marina Silva (Rede), com 16%. Do lado da direita, o deputado federal Guilherme Derrite (PP), atual secretário de Segurança Pública de São Paulo, aparece em terceiro, com 13%, seguido do presidente da Alesp André do Prado (PL), com 11%, e do deputado federal Ricardo Salles (Novo), com 10%. Fecha a lista testada o radialista Paulinho da Força (Solidariedade), com 8%. Indecisos somam 7%, e outros 17% dizem que vão votar em branco, nulo ou em nenhum dos nomes apresentados.

Como a direita chegou a três candidatos para duas vagas

O número por trás desse cenário é, na verdade, uma história de racha interno. O acordo original previa uma vaga ao Senado reservada a Eduardo Bolsonaro (PL), negociado ainda antes de o ex-deputado se mudar para os Estados Unidos alegando perseguição do Supremo Tribunal Federal. Com a inelegibilidade de Eduardo — condenado pelo STF por integrar o núcleo da trama golpista que tentou manter Jair Bolsonaro no poder —, o PL precisou de um substituto, e o escolhido foi André do Prado, que recebeu o aval pessoal de Eduardo por telefone dos Estados Unidos.

A escolha, no entanto, não foi unânime. Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, reagiu publicamente à indicação, classificando Prado como um nome do “centrão fisiológico” escolhido para atender interesses do próprio partido, e manteve sua candidatura de qualquer forma. O racha ficou ainda mais público num telefonema em que, segundo relato do próprio Eduardo Bolsonaro, Salles teria reagido à recusa de apoio dizendo que seria candidato de qualquer jeito. Já Guilherme Derrite, apoiado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) para compor a chapa ao lado de Prado, discorda tanto de Salles quanto do arranjo interno do PL, mas segue como pré-candidato firme.

O resultado é uma configuração pouco usual: três nomes de direita competindo, na prática, pela mesma fatia do eleitorado conservador paulista — exatamente o tipo de fragmentação que, segundo cálculo eleitoral básico num sistema onde só os dois primeiros colocados se elegem, tende a beneficiar candidaturas concorrentes de outros campos que consigam se manter unidas.

O outro lado: dois nomes, um eleitorado consolidado

Tebet e Marina, em contraste, chegam à disputa sem competir entre si pelo mesmo espaço: ambas deixaram ministérios do governo Lula justamente para fazer frente à direita paulista nesta eleição, com a missão política de ocupar as duas vagas em nome do campo governista — não uma contra a outra. É esse alinhamento, mais do que qualquer surpresa de desempenho individual, que explica a vantagem que aparece nos números do Datafolha: a soma dos dois primeiros colocados na pesquisa (34%) supera a soma dos três nomes de direita (34% também, mas divididos de forma mais fragmentada e com potencial de crescimento individual mais limitado, dado o teto observado em pesquisas anteriores).

Um cenário que ainda pode mudar — mas com prazo apertado

A ressalva de praxe se aplica aqui com força redobrada: a cem dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, as candidaturas ainda não foram oficializadas. As convenções partidárias ocorrem entre 20 de julho e 5 de agosto, e o prazo para pedidos de registro na Justiça Eleitoral vai até 15 de agosto — ou seja, ainda há uma janela, ainda que curta, para que o campo da direita resolva seu impasse interno antes do início oficial da campanha.

Rodrigo Constantino e outros aliados de Eduardo Bolsonaro já pressionam nos bastidores para que Salles recue candidatura em nome da unidade — pressão que, até agora, o próprio Salles rejeita publicamente, condicionando sua saída da disputa apenas à hipótese de o PL substituir Prado pelo vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo. Enquanto isso não se resolve, os números do Datafolha sugerem que a direita paulista corre o risco real de repetir, no Senado, o mesmo problema que fragmentações internas já causaram a outros campos políticos em eleições passadas: perder vagas por divisão de votos, não por falta de eleitores.

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.