Diante de Tarcísio a um passo de vencer no primeiro turno, Haddad acelera plano de segurança

A nova pesquisa Datafolha, que colocou o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) com 52% dos votos válidos — patamar que praticamente garantiria a reeleição já no primeiro turno —, fez a pré-campanha de Fernando Haddad (PT) acelerar os planos para apresentar uma proposta de segurança pública ao eleitorado paulista. Segundo apuração da coluna Painel, da Folha de S.Paulo, aliados do ex-ministro da Fazenda avaliam antecipar a divulgação do pacote diante da urgência criada pelo novo cenário eleitoral.

A estratégia: transformar currículo de Fazenda em capital político sobre segurança

A aposta da campanha petista é original, ao menos no contexto da disputa paulista: em vez de discutir policiamento ostensivo — terreno historicamente favorável à direita —, Haddad quer capitalizar sua passagem pelo Ministério da Fazenda, período em que ampliou a autonomia da Receita Federal com foco na repressão a crimes tributários e financeiros ligados a esquemas ilícitos de maior poder econômico. A proposta, batizada internamente de combate ao “andar de cima” do crime organizado, mira o enfrentamento de estruturas financeiras que sustentam facções criminosas — lavagem de dinheiro, fluxos suspeitos e a rede econômica que viabiliza a atuação armada nas ruas, não apenas os elos mais visíveis dela.

O pacote deve incluir ainda medidas voltadas às carreiras de segurança pública, proteção a mulheres, crianças e idosos, e um capítulo específico sobre furtos e roubos de celulares — crime que a pré-campanha identificou como um dos maiores geradores de sensação de insegurança no cotidiano do eleitor paulista, independentemente da queda registrada em indicadores oficiais de criminalidade violenta durante a gestão Tarcísio.

Nos bastidores, aliados de Haddad também sinalizam disposição para explorar críticas de especialistas ao aumento da letalidade policial, dos feminicídios e da violência sexual no estado — temas que tendem a aparecer no programa como contraponto direto ao modelo de segurança pública adotado pelo governo estadual.

O que os números escondem por trás do “próximo do nocaute”

Vale contextualizar melhor o próprio levantamento que motivou a aceleração da campanha petista. Em votos totais — cálculo que inclui indecisos e votos brancos/nulos —, a vantagem de Tarcísio é de 46% a 30%; já no recorte de votos válidos, o patamar sobe para os 52% a 34% que tanto preocupam o entorno de Haddad. Em cenário de segundo turno, a distância se mantém em 53% a 37%, repetindo a mesma polarização observada na eleição estadual de 2022.

Há, porém, um dado que os aliados de Haddad tratam como sinal de vida da pré-candidatura, mesmo em meio ao cenário desfavorável: na modalidade espontânea de pesquisa — em que os nomes não são sugeridos ao entrevistado, e ele precisa lembrar sozinho de quem pretende votar —, Haddad saltou de 2% para 8% desde que deixou o Ministério da Fazenda e oficializou a pré-candidatura. É um crescimento pequeno em termos absolutos, mas relevante como indicador de que o nome do petista começa a ganhar presença espontânea no imaginário do eleitor, historicamente o indicador que mais se movimenta conforme a campanha avança e a exposição do candidato aumenta.

O obstáculo mais evidente para reverter o quadro, porém, segue sendo a rejeição: 47% dos paulistas afirmam que não votariam em Haddad de jeito nenhum, contra 29% de rejeição a Tarcísio — um fosso quase duas vezes maior, e que qualquer pacote de propostas, por mais bem construído que seja, dificilmente reverte sozinho a esta altura da corrida.

Um cálculo de risco, não de certeza

A decisão de antecipar o anúncio do pacote de segurança — inicialmente previsto para integrar a apresentação geral do plano de governo petista, marcada para 15 de agosto, junto a eixos como educação, saúde e mobilidade urbana — expõe o dilema real da pré-campanha: ocupar espaço no debate público antes que a corrida entre na fase decisiva, mesmo correndo o risco de queimar uma proposta ainda em maturação, ou aguardar o cronograma original e ceder ainda mais terreno discursivo a um adversário que já parte com vantagem estrutural de quase 20 pontos.

A estratégia tem uma lógica política reconhecível: transformar um tema tradicionalmente hostil ao campo petista — a segurança pública — em uma frente de ataque inédita, associando-o a um histórico técnico (o combate a crimes financeiros na Receita Federal) que Tarcísio não tem como replicar com a mesma credibilidade. Se essa aposta vai se traduzir em votos, porém, é outra questão: propostas sobre o “andar de cima” do crime organizado tendem a soar abstratas para um eleitorado mais preocupado com o roubo de celular do dia a dia — e é exatamente por isso que a própria campanha já decidiu incluir esse tema no pacote, como tentativa de equilibrar o discurso técnico com uma pauta de sensação concreta de segurança.

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