O senador Flávio Bolsonaro conseguiu a proeza de constranger até a mesa diretora da audiência do tarifaço em Washington. Quem conta é uma testemunha ocular, o economista Gustavo Pessoa, professor da FGV, que participou dos dois dias de sessões e depôs no painel sobre o Pix.
Em entrevista ao VEJA+, Pessoa descreveu um ambiente técnico e amplamente favorável ao Brasil, quebrado por uma única nota destoante. O discurso do senador, segundo ele, “distoou muito de todas as sessões”, sem dados, sem posição técnica, “puramente político”.
A audiência, convocada pelo USTR, o escritório comercial da Casa Branca, ocorreu nos dias 6 e 7 de julho na Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos. Em jogo está a proposta de sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, no âmbito da investigação da Seção 301 que mira o Pix, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, etanol e desmatamento.
Pelo relato de Pessoa, empresas e associações de classe americanas desfilaram argumentos contra o tarifaço, da indústria do mel aos calçados e máquinas. Entidades de consumidores lembraram o óbvio que Trump finge não ver: quem paga tarifa é o consumidor americano, via preços mais altos.
Flávio chegou em outra sintonia. Acompanhado do irmão Eduardo e de três assessores, o senador filmava e fotografava dentro do prédio, onde gravações são proibidas, até ser repreendido pela presidência da mesa.
Na saída, o pré-candidato pediu para escapar pela garagem, fugindo dos repórteres que o aguardavam na entrada principal. Coragem cívica em estado puro.
O conteúdo da fala foi ainda pior que a forma. Flávio admitiu, diante de autoridades americanas, que as tarifas podem prejudicar sua campanha por favorecerem politicamente Lula, transformando uma audiência comercial em palanque eleitoral.
O constrangimento não ficou restrito à esquerda. Até o mercado financeiro, que torce abertamente contra Lula, classificou a atuação do senador como inócua e frustrante, segundo relatos publicados pelo Globo.
No painel sobre o Pix, Pessoa apresentou os números que desmontam a acusação americana de concorrência desleal. A emissão de cartões de crédito dobrou desde a criação do sistema, porque o Pix trouxe milhões de brasileiros ao mercado formal.
O economista lembrou ainda que o maior iniciador de pagamentos via Pix é justamente o Google Pay, uma empresa americana. A representante do Tesouro dos Estados Unidos, aliás, quis saber como seu país poderia se beneficiar de um sistema parecido.
O quadro final é revelador. Enquanto técnicos brasileiros e empresários americanos defendiam a racionalidade econômica, o pré-candidato da extrema direita sabotava a própria imagem e a do país que pretende governar.
Pessoa acredita que a decisão final do USTR será política, não técnica, porque é assim que Trump opera com todos os países.