Trump surta sobre a Groenlândia e desestabiliza OTAN

Aliados europeus tentam entender se a pressão de Trump sobre a Groenlândia faz parte de uma estratégia real ou de uma tática de negociação dentro da OTAN / Getty

Os líderes europeus deixaram Ancara nesta semana carregando uma dúvida incômoda: afinal, Donald Trump quer mesmo anexar a Groenlândia, ou apenas usa a ilha como peça de barganha para pressionar a OTAN? Ninguém, nem mesmo os diplomatas mais experientes da aliança, conseguiu dar uma resposta definitiva. Enquanto isso, o mundo observa outro capítulo tenso da política externa americana: na madrugada desta semana, os Estados Unidos atacaram novamente o Irã, e Trump prometeu manter as ofensivas até que Teerã pare de atacar embarcações no Estreito de Ormuz. Como consequência imediata, os preços do petróleo subiram cerca de US$ 1 por barril, reforçando a sensação de que a instabilidade geopolítica segue em alta.

A questão da Groenlândia não nasceu agora. Segundo o Financial Times, Trump já defendia o controle americano sobre a ilha ártica desde seu primeiro mandato. Contudo, a ameaça ganhou contornos mais sérios nesta primavera, quando o presidente se recusou a descartar publicamente o uso de força militar para tomar o território dinamarquês. Vale lembrar que os Estados Unidos já mantêm, há décadas, um tratado que garante amplos poderes militares na região, o que torna a retórica de Trump ainda mais delicada para os aliados europeus.

Na terça-feira, o tom voltou a subir. Trump reafirmou que “[a Groenlândia] deveria ser controlada pelos Estados Unidos, não pela Dinamarca… Foi isso que prejudicou minha relação com a OTAN, porque a Groenlândia não ajuda a Dinamarca”. A frase, dita antes de uma reunião crucial da aliança, acendeu o alerta nas capitais europeias. Afinal, temia-se que o encontro anual de líderes fosse sequestrado por um tema que, poucos meses antes, já havia ameaçado rachar a unidade da OTAN.

Contudo, algo mudou entre o jantar com os demais líderes da aliança e a chegada de Trump à sessão formal de negociações. A Groenlândia, de repente, sumiu de seus discursos. A segurança no Ártico deixou de ser prioridade. Em vez disso, o combate ao “comunismo” virou o assunto favorito do presidente americano.

Depois da cúpula, Trump minimizou qualquer tensão diante dos repórteres. “Acabamos de ter nossa reunião da OTAN, e foi uma ótima reunião”, declarou. E completou: “Havia muito amor naquela sala hoje, muita união. Não poderia ter corrido muito melhor.” A mudança abrupta de tom surpreendeu até quem acompanha de perto o estilo imprevisível do republicano.

Diplomatas europeus, por sua vez, relatam uma leitura mais tranquilizadora: o discurso público de Trump costuma soar bem mais agressivo do que suas ações reais nos bastidores. Prova disso é que Marco Rubio, secretário de Estado americano, sequer mencionou a Groenlândia durante o jantar de ministros das Relações Exteriores da OTAN, horas depois de seu chefe acusar a Dinamarca de negligenciar o território.

Bastidores revelam incerteza entre aliados

Um alto funcionário da OTAN tentou explicar a contradição. “Talvez ele tenha sido provocado pela pergunta [do jornalista]”, ponderou. E acrescentou: “Talvez ele simplesmente tenha retomado seus argumentos de sempre. De qualquer forma, realmente não parece que essa [exigência de posse da Groenlândia] seja uma estratégia concreta.”

Para líderes como Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca, essa indefinição retórica é particularmente desconfortável. Afinal, ninguém sabe ao certo quando Trump está blefando e quando está, de fato, planejando uma ação concreta contra um território de um país aliado.

Mark Rutte, secretário-geral da OTAN, tentou equilibrar-se nessa corda bamba diplomática. Por um lado, ele validou o argumento de Trump de que o litoral da Groenlândia não deveria ficar exposto a navios de guerra russos ou chineses. Por outro, fez questão de deixar claro que qualquer decisão sobre o futuro da ilha cabe exclusivamente a Copenhague e Nuuk, não a Washington nem a Bruxelas.

Ainda assim, um diplomata da aliança resumiu bem a inquietação geral: “Seja por acaso ou planejado, não podemos continuar esperando que esse problema simplesmente desapareça. Precisamos de um plano concreto.” A frase expõe o desconforto de uma Europa que se vê refém das oscilações de humor de Washington.

Reino Unido perde força

Enquanto a Groenlândia domina as manchetes, outro processo silencioso enfraquece a capacidade europeia de reagir. Os cortes nos orçamentos britânicos de defesa e ajuda externa vêm corroendo um dos pilares tradicionais da segurança europeia. Essa retração acontece justamente no momento em que o afastamento de Washington obriga o continente a assumir, sozinho, mais responsabilidades estratégicas. Assim, a Europa se vê espremida entre um aliado americano imprevisível e um parceiro britânico cada vez mais limitado.

UE se divide sobre quem paga a conta do carbono

Enquanto a diplomacia da segurança patina, outra disputa também ganha força em Bruxelas: a briga em torno dos custos do carbono. Grupos empresariais da França, da Alemanha e da Itália pressionam a Comissão Europeia por mais flexibilidade na revisão do sistema de comércio de emissões, prevista para a próxima semana. Já a influente família sueca Wallenberg empurra na direção contrária, defendendo regras mais rígidas.

A Comissão Europeia deve apresentar, em breve, planos para alinhar o sistema de limites e comércio de emissões da UE às metas climáticas de 2040. O declínio industrial do continente preocupa fortemente os formuladores de políticas públicas. Por isso, a Medef francesa, a BDI alemã e a Confindustria italiana uniram forças e pediram, conjuntamente, uma revisão do sistema para aliviar o peso sobre a indústria.

“A Europa deve descarbonizar a sua economia sem perder as suas indústrias, e as condições gerais para o investimento devem ser consideravelmente melhoradas”, afirmaram as federações em carta conjunta enviada à presidente da Comissão, Ursula von der Leyen.

As três federações empresariais também defendem que novas licenças de emissão sejam emitidas depois de 2040, um pedido que, ao que tudo indica, deve ser atendido. Além disso, elas querem manter licenças gratuitas para alguns setores, mesmo com a chegada do mecanismo de ajuste de carbono na fronteira sobre importações. Adicionalmente, propõem incluir créditos de carbono, além de captura e remoção do gás, dentro do programa.

Por outro lado, essas mesmas federações rejeitam os planos, revelados inicialmente pelo Financial Times, de incluir voos internacionais e emissões marítimas no sistema europeu. Ou seja, querem alívio para a indústria pesada, mas resistem a ampliar o alcance da cobrança para outros setores poluentes.

Enquanto isso, países e empresas que já investiram pesado na transição energética cobram justamente o oposto: mais ambição climática, não menos. Jacob e Marcus Wallenberg, magnatas suecos à frente de um dos grupos empresariais mais influentes da Europa, enviaram a von der Leyen um apelo direto para manter o sistema robusto.

“Os investimentos de baixo carbono criam valor para os negócios e aumentam a competitividade, o que protege empregos, crescimento e bem-estar em toda a região”, declararam os irmãos suecos.

No fim das contas, a Europa caminha espremida entre forças contraditórias em praticamente todas as frentes. Na diplomacia, precisa decifrar se as ameaças de Trump sobre a Groenlândia são estratégia ou impulso passageiro. Na economia, precisa escolher entre proteger indústrias tradicionais ou acelerar a transição verde exigida por quem já investiu nela. Assim, a próxima semana em Bruxelas promete ser decisiva: de um lado, a pressão de gigantes industriais que temem perder competitividade; do outro, vozes como a dos Wallenberg, que insistem que a ambição climática também é uma estratégia econômica vencedora. Resta saber qual lado vai prevalecer quando a Comissão Europeia finalmente apresentar sua proposta.

Rhyan de Meira: Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com
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