Como o Partido Novo virou o pesadelo de Deltan Dallagnol 

A empresa Comply Aperfeiçoamento Profissional — que tem como sócios o ex-procurador Deltan Dallagnol (Novo-PR), cassado pela Justiça Eleitoral, sua esposa e seus filhos — recebeu R$ 382 mil do Partido Novo em 2025, pagos com recursos do fundo partidário, verba pública destinada à manutenção e ao funcionamento das legendas. A informação é da coluna Painel, da Folha de S.Paulo, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

De pessoa física a pessoa jurídica: uma mudança que também é contábil

O detalhe mais revelador do caso está na engenharia do próprio contrato. Segundo a reportagem, Dallagnol inicialmente recebia a remuneração diretamente, como pessoa física, pelo trabalho de “embaixador” da legenda. Em algum momento, esse vínculo passou a ser formalizado por meio da Comply — empresa aberta em julho de 2021, ainda quando ele integrava o Ministério Público Federal, e da qual são sócios sua esposa e seus filhos. O contrato hoje em vigor prevê remuneração mensal de R$ 42,5 mil.

Migrar de pagamento por pessoa física para prestação de serviço via pessoa jurídica costuma render vantagens tributárias relevantes — planejamento tributário comum e não necessariamente ilegal, mas que ganha outro peso quando a fonte pagadora é recurso público do fundo partidário e o beneficiário é uma empresa familiar do próprio contratado.

O currículo por trás do “embaixador”

Vale lembrar o histórico que trouxe Dallagnol a essa função. Ex-procurador que liderou a força-tarefa da Lava Jato no Paraná, ele se elegeu deputado federal em 2022 pelo Podemos, migrando depois para o Novo. Em maio de 2023, porém, foi cassado pelo TSE por infração à Lei da Ficha Limpa — decisão relacionada a seu histórico como procurador — perdendo o mandato. Desde então, ocupa a função de “embaixador” do Partido Novo, hoje também na condição de pré-candidato ao Senado.

A defesa: crescimento de filiados como métrica de resultado

Tanto a assessoria de Dallagnol quanto a direção nacional do Novo classificaram o contrato como regular. Segundo a legenda, a função de embaixador envolve o desenvolvimento de campanhas de comunicação e marketing partidário, engajamento de bases e atração de novos filiados. O presidente nacional do partido, Eduardo Ribeiro, foi além e apresentou números para justificar o investimento: segundo ele, o Novo saltou de 34.421 para 81.755 filiados entre a chegada de Dallagnol, em setembro de 2023, e julho de 2026 — crescimento de 137,5% —, com um pico de 1.720 novas filiações já no primeiro mês de atuação do ex-procurador.

Um padrão que vale a pena observar de perto

O episódio se soma a um debate mais amplo sobre o uso do fundo partidário — recurso público, bilionário, distribuído anualmente entre as legendas conforme sua representação no Congresso — para remunerar atividades de comunicação, marketing e “embaixadores” que, na prática, também funcionam como pré-campanha antecipada de figuras políticas relevantes. Não é a primeira vez que esse tipo de gasto aparece no noticiário recente: o próprio PL, por exemplo, já teve apontados R$ 484 mil gastos em quatro meses com um núcleo de comunicação ligado a Jair Bolsonaro, também bancados por recursos partidários.

O que diferencia o caso Dallagnol é a proximidade familiar do arranjo: o dinheiro público do fundo partidário paga uma empresa cujos sócios são o próprio contratado, sua esposa e seus filhos — uma estrutura que, mesmo formalmente regular perante a legislação eleitoral, expõe como recursos originalmente destinados ao fortalecimento institucional dos partidos podem se converter, na prática, em fonte de renda familiar de quadros políticos em ascensão, num modelo de remuneração que só se torna público quando jornalistas cruzam os dados abertos do TSE.

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