Uma nova camada da investigação sobre o Banco Master revela que o banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso, teria encomendado dossiês sigilosos sobre André Esteves, chairman do BTG Pactual — reunindo dados pessoais, financeiros e empresariais do rival, segundo documentos obtidos pelo Estadão. A produção do material teria ficado a cargo do publicitário Thiago Miranda, ex-sócio do portal de fofocas Leo Dias, que foi alvo de operação da Polícia Federal na última quinta-feira (9).
Uma rede paralela de coleta de dados sigilosos
Segundo a investigação, Miranda repassava as demandas de Vorcaro a um especialista em segurança digital de sua confiança, responsável por acessar sistemas restritos e obter informações que não estavam disponíveis por consulta pública — incluindo dados usados para verificação de documentos pessoais, normalmente reservados a órgãos de segurança. Um dos relatórios produzidos mapeava ainda os vínculos diretos e indiretos de Esteves com outras empresas, neste caso a partir de fontes abertas e registros empresariais.
Além de Esteves, a PF também aponta como alvo dessa mesma engrenagem Milton Maluhy, CEO do Itaú Unibanco e presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) — o que sugere que a estrutura de monitoramento e constrangimento de adversários ia além de uma rixa pessoal entre dois banqueiros, atingindo também representantes institucionais do sistema financeiro.
Por que Esteves virou alvo: a disputa pelo Master
O contexto por trás dos dossiês ajuda a explicar a motivação. Vorcaro e Esteves protagonizaram embates diretos durante as tratativas para a venda do Banco Master, que enfrentava dificuldades financeiras e buscava uma solução para recompor suas contas. Mensagens trocadas entre Vorcaro e sua ex-namorada, a influenciadora Martha Graeff, já haviam revelado que o controlador do Master enxergava Esteves como adversário direto nos negócios — chegando a atribuir a ele uma tentativa de convencer o Banco Central a barrar a negociação alternativa do Master com o Banco de Brasília (BRB).
Em uma dessas mensagens, Vorcaro descreveu um encontro com Esteves em abril de 2025 em tom de deboche misturado a desconfiança, relatando que o rival se apresentou como o maior banqueiro do mundo e insistiu que deveriam “agradecer a Deus a proposta dele. E esquecer o BRB”. Vorcaro também relatou que o encontro ocorreu por recomendação do próprio Banco Central, e que sentia a influência de Esteves pesando sobre os rumos da negociação dentro da autoridade monetária.
Negócio que não saiu do papel — mas deixou rastro bilionário
A aquisição do Banco Master pelo BTG Pactual acabou não se concretizando. Mesmo assim, Vorcaro vendeu ao banco de Esteves cerca de R$ 1,5 bilhão em ativos pessoais antes do rompimento das tratativas. Na sequência, tentou reforçar as finanças do Master por meio da venda de R$ 12,2 bilhões em ativos ao BRB — operação que hoje está sob investigação da Polícia Federal por suspeita de crimes financeiros, e que foi um dos estopins que levaram à liquidação do banco pelo Banco Central em novembro de 2025.
Um padrão que já preocupa até aliados políticos de Vorcaro
O episódio dos dossiês contra Esteves se encaixa num padrão mais amplo que a investigação sobre o Banco Master vem revelando nas últimas semanas: o uso de estruturas paralelas — fora dos canais formais de investigação ou imprensa — para monitorar, pressionar e constranger adversários, sejam eles concorrentes do mercado financeiro, jornalistas ou autoridades públicas. É esse mesmo padrão de comportamento que já vem sendo apontado por analistas como um fator que, cada vez mais, corrói o apoio de setores da elite financeira e política ao entorno do senador Flávio Bolsonaro — que recorreu justamente ao financiamento de Vorcaro para custear a produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia de seu pai.
Procurados pela reportagem original, nem a defesa de Thiago Miranda nem André Esteves se manifestaram sobre as revelações até a publicação.