Trump promete “dizimar” o Irã com mil mísseis prontos — mas negociações de paz seguem de pé nos bastidores

Aliados europeus tentam entender se a pressão de Trump sobre a Groenlândia faz parte de uma estratégia real ou de uma tática de negociação dentro da OTAN / Getty

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, elevou ainda mais o tom contra o Irã neste sábado (11), afirmando que Washington está pronta para “dizimar” o país caso autoridades iranianas tentem atentar contra sua vida. Segundo ele, mil mísseis já estariam carregados e apontados para o território iraniano, com milhares de outros disponíveis para uma ofensiva ainda maior. As informações são da Al Jazeera, que acompanha em tempo real a escalada entre os dois países.

Uma retórica de guerra que convive com canais diplomáticos ainda abertos

O que chama atenção no momento atual do conflito é justamente esse contraste: apesar da ameaça pública mais dura já feita por Trump desde a retomada dos ataques, uma autoridade americana informou à Al Jazeera que Washington segue comprometida com as negociações — mesmo depois de dois dias consecutivos de bombardeios contra o Irã nesta semana. Nenhum dos dois governos declarou formalmente o fim das conversas técnicas para um acordo de paz permanente.

O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, acusou os Estados Unidos de romper o memorando de entendimento vigente entre os países ao retomar os ataques aéreos e revogar a isenção que permitia parte das exportações de petróleo iranianas. Já o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, foi além, apontando um padrão histórico dos americanos de descumprir ou abandonar acordos internacionais — mas fez questão de esclarecer que Teerã, mesmo sem ter pedido a retomada das negociações, aceita receber mediadores internacionais em solo iraniano.

“Um período de testes, não o fim das negociações”

Para o cientista político Paul Musgrave, professor da Universidade de Georgetown no Catar, a escalada atual de ameaças reflete uma tentativa de ambos os lados de sinalizar suas prioridades reais antes de fechar um acordo. Segundo ele, o momento atual configura um período de testes, mas está longe de representar o fim das negociações. Musgrave também revelou que representantes americanos já apresentaram ao Irã a possibilidade de um pacote mais amplo — incluindo o levantamento de sanções, retomada do comércio bilateral e a criação de um fundo estimado em US$ 300 bilhões para reintegrar a economia iraniana ao sistema global, uma solução desenhada para que os dois lados possam sair alegando vitória.

O nó geopolítico: quem controla o Estreito de Ormuz

Enquanto isso, Araghchi viajou a Omã para dar continuidade a consultas que já duram cerca de dois meses sobre as regras de navegação no Estreito de Ormuz — rota estratégica para o comércio global de petróleo. O Irã insiste no direito soberano de participar da administração do estreito, sob justificativa de segurança regional, enquanto negociadores americanos, incluindo Jared Kushner e Steve Witkoff, pressionam Teerã a declarar publicamente a rota aberta a todos os países, como parte de uma solução econômica mais ampla vinculada ao fim das sanções.

Sinais de resiliência dentro do Irã

No terreno, autoridades iranianas confirmaram que uma ponte ferroviária estratégica na província de Golestan — atingida por um ataque americano na quarta-feira (8) — já voltou a operar menos de 24 horas depois, conectando o norte do país ao Turcomenistão e à Ásia Central. O governador local classificou a rápida reconstrução como resposta prática às ações do que descreveu como “inimigos” do país.

Uma escalada que ainda convive com moderação estratégica

Uma análise da própria Al Jazeera aponta que a estratégia americana busca combinar pressão militar, instabilidade interna no Irã e articulação diplomática com aliados ocidentais — mas reconhece que, até aqui, esse conjunto de pressões, por mais custoso que tenha sido para Teerã, ainda não produziu qualquer mudança decisiva na estrutura de poder ou na orientação estratégica do regime iraniano. É esse hiato entre a retórica incendiária de Trump — inclusive durante sua participação na cúpula da Otan, na Turquia — e a manutenção de canais técnicos de negociação que define o momento atual: uma guerra que já matou civis e derrubou infraestrutura estratégica, mas que, paradoxalmente, ainda não fechou de vez a porta para um acordo negociado.

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