Republicanos despacha Flávio e escancara o tamanho do racho na extrema-direita

REPRODUÇÃO

O partido Republicanos decidiu não declarar apoio, por ora, à pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República, em mais um golpe à tentativa do PL de construir uma frente unificada do campo bolsonarista para outubro. Segundo apuração do UOL, a legenda optou por consultar bancadas, diretórios estaduais e bases antes de bater o martelo sobre seu posicionamento na disputa — decisão que, na prática, empurra a definição para mais adiante, justamente no momento em que Flávio mais precisava de sinais de consolidação.

Um recuo que expõe a fragilidade da articulação

A indefinição do Republicanos chega num momento particularmente desconfortável para a pré-campanha de Flávio: o partido de Marcos Pereira é peça-chave para qualquer tentativa de unificação da direita, e sua hesitação em declarar apoio formal reforça a leitura de que o senador ainda não conseguiu reunir, sob sua liderança, os mesmos partidos que historicamente compunham a base de Jair Bolsonaro.

O episódio se soma a outro sinal de enfraquecimento na mesma legenda: a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) confirmou ao UOL que encerrou sua colaboração na formulação do plano de governo de Flávio na área de direitos humanos. Segundo ela, o trabalho já cumprido bastava por ora — “já fiz o que era preciso no primeiro momento” —, deixando em aberto se voltará a atuar diretamente na campanha ou apenas numa eventual fase de transição de governo, caso Flávio avance na disputa.

A carta de Jair e a acusação de boicote

Em meio a essas dificuldades de articulação, Flávio recorreu às redes sociais para divulgar uma carta atribuída ao próprio pai, Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar, conclamando à unidade em torno de sua candidatura como “a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”. Mas o gesto, em vez de projetar força, acabou expondo fragilidade: logo após ler a carta publicamente, o próprio Flávio reclamou que parte de seus aliados estaria retardando o engajamento na campanha, dizendo que “muitas pessoas parecem que estão boicotando a nossa candidatura” — sem citar nomes —, numa crítica implícita a apoiadores que, segundo ele, esperam o momento mais oportuno para se engajar publicamente em vez de agir desde já.

Michelle, o racha mais visível de todos

A crise entre Flávio e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro segue como o capítulo mais exposto dessa fragmentação. Michelle já havia divulgado, no fim de junho, um vídeo em que relatou ter sido maltratada durante as negociações sobre as candidaturas do PL no Ceará — dizendo que ela e seus aliados foram tratados “como idiota” nas tratativas internas. É esse mesmo racha que levou à saída dela da presidência do PL Mulher, e que, segundo o próprio presidente do partido, Valdemar Costa Neto, segue sem solução mesmo depois do apelo por unidade feito na carta de Jair.

Um quadro de fragmentação que já não é mais discreto

O que a soma desses episódios revela é uma pré-candidatura que, a duas semanas da convenção nacional do PL, marcada para 25 de julho, ainda não conseguiu resolver praticamente nenhum dos seus problemas de articulação: falta o apoio formal do Republicanos, falta a reconciliação com Michelle, falta um vice definido, e sobra uma lista crescente de aliados — de Damares a nomes historicamente ligados ao bolsonarismo — que preferem, por ora, manter distância pública da candidatura.

Combinado às pesquisas mais recentes, que já mostram Lula (PT) na frente em praticamente todos os recortes e com eleitorado mais fiel, o quadro de fragmentação na extrema-direita brasileira parece, cada vez mais, um obstáculo que o próprio campo bolsonarista terá de resolver sozinho — e rápido — se quiser competir de forma consolidada em outubro.

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