O mundo precisa botar uma focinheira nos Estados Unidos

Imagem de IA criada por Miguel do Rosário, O Cafezinho

Donald Trump resolveu atacar a humanidade inteira. A reincidência da guerra contra o Irã, com mais de 140 alvos bombardeados em violação aberta ao cessar-fogo, não é responsabilidade de Teerã.

Foi Trump quem rompeu o memorando de paz que ele próprio assinou. O documento, firmado com o presidente iraniano diante de testemunhas internacionais, estabelecia que o Estreito de Ormuz seria monitorado pelo Irã, sem cobrança de taxa nos primeiros meses e, depois, com uma tarifa quase simbólica de 1% ou 2% para cobrir os custos da operação.

A cláusula número um era cristalina: nenhum país faria ameaça ao outro. No dia seguinte à assinatura, Trump já ameaçava o Irã de novo.

A mídia ocidental, inclusive boa parte da brasileira, é cúmplice desse crime quando omite essa verdade elementar. Quem rasgou o acordo tem nome, sobrenome e endereço na Casa Branca.

Agora o presidente americano anuncia que vai reabrir o estreito à força e cobrar 20% sobre cada carregamento de petróleo que passar por ali. Não satisfeito, exige ser “reembolsado” pelos países ricos da região, citando nominalmente Arábia Saudita, Emirados, Catar, Kuwait e até Israel.

E ainda se gaba, sem nenhum pudor, de ter se apossado da Venezuela. “Quando você adiciona a Venezuela, temos mais petróleo que qualquer país do mundo”, disse ele, celebrando o saque como quem exibe um troféu.

A hipocrisia é tão escancarada que dispensa análise sofisticada. Foi o próprio secretário de Estado Marco Rubio quem declarou, semanas atrás, que “nenhum país tem permissão para cobrar pedágio em uma via navegável internacional, isso é direito internacional”.

A frase foi dita para condenar o Irã. Agora o chefe de Rubio quer cobrar 20% de pedágio no mesmo estreito, e o jornalista Jeremy Scahill fez bem em lembrar o mundo dessa contradição obscena.

Rubio, aliás, abriu outra frente de agressão contra a humanidade. O Departamento de Estado anunciou uma campanha para “desmantelar” o que chama de ameaça do Tribunal Penal Internacional à soberania americana, prometendo pressionar países a abandonar o tribunal, cassar vistos de seus funcionários e ampliar sanções contra a corte, conforme revelou o Drop Site News.

Kenneth Roth, ex-diretor da Human Rights Watch, foi direto ao ponto. Rubio está vestindo com a linguagem da soberania nacional o desejo de impunidade para crimes de guerra americanos no exterior, ignorando o direito soberano de outras nações de processar crimes cometidos em seu território.

O TPI não é perfeito, e seus erros mais graves ocorreram justamente quando se curvou às pressões de Washington e aos vícios imperialistas europeus. Mas continua sendo um dos braços do multilateralismo, a única forma de construir uma ordem internacional baseada em leis, e não na lei do mais forte, nessa anarquia violenta e bárbara que os Estados Unidos querem impor ao planeta.

Não faz mais sentido falar em aliados e inimigos. Essa lógica maniqueísta americana sempre foi ridícula, e o mundo precisa caminhar para uma grande aliança global em que todos os países comercializem entre si, sem inimigos artificiais.

Mesmo aceitando por um instante essa lógica infantil, Trump está cuspindo na cara dos próprios “aliados”. Ele bombardeia, fecha o estreito, cobra pedágio e ainda manda a fatura da “proteção” para Riade, Doha e Tel Aviv.

Quem vai pagar essa conta são bilhões de pessoas. O preço dos fertilizantes já está subindo, e a fome que vem aí nos próximos dois anos terá a assinatura desse gangster internacional.

O presidente Lula é, neste momento, a única liderança mundial peitando Trump de frente. Em discurso no Instituto Mauá de Tecnologia, ele foi certeiro:

“Trump fez um post dizendo que reabriria o Estreito de Ormuz, mas que cada navio que ele deixar passar, o dono do petróleo teria que pagar 20%. Isso se chamava pirataria, não era? Um país tão importante como os Estados Unidos, que passou tanto tempo combatendo a pirataria, não pode agora se tornar um pirata. Ele não deveria cobrar por isso, porque o estreito não é responsabilidade dele.”

As lideranças políticas brasileiras precisam entender o papel do Brasil nesta hora. O Irã não se ajoelha, a Rússia não se ajoelha, e o Brasil também não pode se ajoelhar diante desse bandido.

Trump está prejudicando diretamente os brasileiros. A guerra insana no Oriente Médio eleva o preço da gasolina e do diesel, e isso se transforma em arroz e feijão mais caros na mesa do trabalhador.

A humanidade está diante de uma escolha moral. O mínimo que o Brasil pode fazer agora é marcar com clareza esse verme entreguista que é Flávio Bolsonaro e o movimento que ele lidera, que oferece o país de bandeja ao agressor.

Vencida a eleição de outubro, o Brasil precisa avançar na articulação de uma ordem internacional multipolar e botar uma focinheira nos Estados Unidos. Porque o que os Estados Unidos de Trump se tornaram é uma besta selvagem, descontrolada e raivosa, e a humanidade precisa controlá-la.

Redação:
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